Linchamentos virtuais: o que motiva os atos e a gravidade desse comportamento na sociedade atual

Enviada em 24/09/2022

Com o objetivo de punir as pessoas consideradas feiticeiras da época, a caça às bruxas foi um movimento clássico de perseguição religiosa e social no século XV e seguintes. Nesse aspecto, apesar dessa repressão ter sido desmistificada ao longo do tempo, pode-se evidenciá-la como uma vertente atual que caracteriza a era digital, por meio dos linchamentos virtuais. Esses comportamentos, nos dias de hoje, são motivados principalmente pela difusão da internet. Seja pelo ditatorialismo do “politicamente correto” ou pela rápida divulgação de atitudes contrárias a ele e suas consequências.

Diante disso, faz-se importante destacar que, ao mesmo tempo que a internet serve como um mecanismo para conectar milhares de pessoas distintas, ela também facilita a exclusão de diversas outras que apresentam ações desaprováveis pela comunidade da web, que resultam em mensagens e insultos de vários usuários. Acerca disso, no livro “Raízes do Brasil”, Sergio Buarque de Holanda define a segregação social como uma característica inerente à sociedade brasileira. Assim, essa afirmação ganha força quando analisa-se as práticas de linchamento virtual, especialmente direcionadas a indivíduos que realizam publicações que refletem, em certa forma, preconceitos da população amplamente rejeitados no ambiente tecnológico, e usadas como passe-livre para ameaças, injúrias e ofenças.

Por conseguinte, a “viralização” desses conteúdos que rapidamente ultrapassam as esferas das redes sociais, mostram efeitos graves para os internautas reputados como “bodes expiatórios” desses preceitos. Nesse viés, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Psicologia da USP, em 2020, mostra que palavras nocivas compartilhadas em grande escala, além de excluir esses indivíduos, colaboram para sintomas de depressão e ansiedade. Dessa maneira, caracteriza-se um paradoxo - os linchamentos que, em teoria, deveriam ser usados como forma de contrariar as práticas eticamente inadequadas, acabam por, no final das contas, se tornarem mais uma adversidade.

Tendo em vista os fatos supracitados, é necessário aderir medidas que venham reverter o quadro atual. Portanto, urge que o Estado, em figura do Ministério da Cidadania, em conjunto com as mídias sociais e meios de comunicação, crie campanhas de conscientização, por meio de verbas públicas, a fim de sensibilizar a sociedade acerca dos malefícios dos ataques virtuais e mostrar que o caminho para extinguir atitudes moralmente inadequadas não é por meio de mensagens que possuem teor de insulto ou exclusão. Somente assim, a internet deixará a caça às bruxas para a idade média e avançará rumo à uma nova era.