Lixo e cidadania: “Pensar globalmente, agir localmente”.
Enviada em 21/10/2020
Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. Fora da literatura, uma cegueira moral, similar à retratada no romance, impede que se enxergue a gravidade da questão do lixo e os impactos dele na vida humana. Nesse sentido, tal cenário tem como causas principais a alienação social, bem como o individualismo exacerbado os quais devem ser combatidos por medidas governamentais e privadas.
Em primeiro plano, deve-se analisar a inércia da sociedade em relação ao lixo. Segundo Hannah Arendt no livro “A Banalidade do Mal”, em uma sociedade cujos princípios não são criticamente debatidos pelos indivíduos que a compõem, ações deletérias ao próprio conjunto tendem a se naturalizar. Sob essa ótica amparada pela filósofa alemã, a generalizada ausência de debates acerca do destino do lixo e dos impactos socioambientais que o seu depósito inadequado acarreta, como doenças por acúmulo de metais pesados, catalisa um processo no qual esses fenômenos deixam de ser vistos como prejudiciais. Assim, o revés finda por permanecer na sociedade em função de não ser combatido.
Além disso, esse cenário de desarmonia tem como propulsora a individualidade desmedida, já que, sem uma visão ampliada, as pessoas pouco refletirão sobre as consequências coletivas de seus atos. Sobre isso, Émile Durkheim postulou que a atual conjuntura econômica baseada na competição individualista pode corromper os vínculos de solidariedade que asseguram o equilíbrio social, o que faz com que a sociedade perca sua capacidade agregadora. Nessa perspectiva, tal mentalidade egoísta impede que hábitos de consumo irrefletidos sejam abandonados, uma vez que não impactam, a curto prazo, diretamente a vida desses indivíduos.
Portanto, é imprescindível que princípios cidadãos de direitos e deveres balizem as ações dos indivíduos quanto ao lixo. Para isso, o Governo deve instituir projetos que farão simulações em fotos de como as cidades estarão daqui a poucos anos caso os ritmos de produção de lixo sejam mantidos. Isso deve ser feito aliado à iniciativa privada e à mídia, com o objetivo de esclarecer a toda a população sobre o real Impacto que os resíduos têm na humanidade. Ademais, informações sobre a atual conjuntura do problema em questão devem ser estampadas posteriormente às simulações, para que sirvam de subsídios a debates e discussões que engajarão a população. Feito isso, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada.