Maternidade compulsória em debate no Brasil

Enviada em 12/08/2021

De acordo com o livro “Dores do Mundo”, de Arthur Schopenhauer, escrito no século XIX, a mulher nada mais é do que uma ferramenta para a propagação da espécie, o que faz a obra assumir um caráter de repulsiva misoginia. Entretanto, já no século XXI, é preocupante o quanto essa visão pode ainda estar presente no âmago humano, tendo em vista a percepção da inevitabilidade da maternidade quando se é do sexo feminino — uma pressão social com efeitos deletérios nas liberdades de escolha das mulheres. Assim, é possível afirmar que não só a frágil concepção de que a falta de filhos é sinônimo de solidão eterna, mas também a própria sociedade tradicional como fomentadora de um padrão social fomentam o status quo contemporâneo dos anos 2000.

Inicialmente, é necessário desmistificar a ideia de que a não formação de uma entidade familiar é uma verdadeira autodestruição da psicologia humana. Por exemplo, Clarice Lispector, escritora brasileira da 2ª metade do século XX, retrata em sua obra ,“Laços de de Família”, a questão da solidão, do abandono e do sentimento de desamparo, logo ela, que gerou filhos e teve um marido. A partir desse aspecto, a noção de que se sentir sozinho é oriundo da falta de vínculos afetivos é uma mentira, pois é um sentimento humano da vida, não um pré requisito por não gerar um descendente.

Ademais, outro impasse tange à questão da influência populacional no aumento das pressões cotidianas para com as mulheres — as quais, aparantemente, são julgadas por assumirem uma postura de decisão em relação à gravidez. Conforme uma das entrevistas feitas com o cantor “Belchior”, a qual foi gravada no livro “Apenas um Rapaz Latino Americano”, o cearense afirmou que liberdade só existe quando se pode dizer não. A priori, é inadmissível a coibição da vontade individual, seja por comentários ou atitudes de extremo mau gosto — afinal, a gravidez deve nascer por força de vontade, não de imposição.

Destarte, é dever do Estado, no âmbito de ministérios atuantes, em consonância com instituições de ensino, realizar a conscientização populacional por intermédio de palestras educativas e campanhas publicitárias acerca não só da deleteriedade que comportamentos sociais podem ter na psique feminina, mas também da demonstração de atitudes dignas de repulsão para o reconhecimento claro de incoveniências. Espera-se, com tudo isso, uma mudança na postura populacional e, por conseguinte, mulheres mais satisfeitas por terem uma opinião respeitada.