Maternidade compulsória em debate no Brasil

Enviada em 18/08/2021

O filme estadunidense “Plano B” retrata a vida de Zoe, uma mulher solteira que anseia por ter filhos antes que seus anos de fertilidade se esgotem. Para isso, tendo planejado, pensado e decidido por seu futuro, a protagonista desiste de encontrar um marido para realizar tal objetivo e opta pela realização de uma inseminação artificial, convicta a lidar com a situação e com a criação de seus filhos sozinha. Distante da representação cinematográfica, o planejamento familiar na sociedade brasileira, bem como a clareza relacionada aos desejos de procriação, têm se mostrado deficientes em relação à maternidade compulsória. Nesse sentido, observa-se um delicado problema que tem como causas a influência da mentalidade social e o legado histórico.

Dessa forma, em primeira análise, o pensamento coletivo é um desafio presente no problema. Para Durkheim, “o homem, mais que formador da sociedade, é um produto dela”. De fato, a ação individual resulta de um coletivo problemático quanto à obrigatoriedade imposta à geração de filhos, visto que, ao encontrarem-se cercadas de indivíduos que decidem por seu futuro e pela ausência de questionamento sobre suas próprias vontades, as mulheres passam a crer que, somente por terem nascido, devem parir incontestavelmente e o mais rápido possível, privadas de suas próprias decisões. Assim, urge que a base sociocultural seja revista para que o comportamento do indivíduo mude.

Em paralelo, a herança do passado é um entrave no que tange ao problema. De acordo com Lévi-Strauss, só é possível entender a sociedade por meio dos eventos históricos que a formam. Evidentemente, o passado explica boa parte do pensamento coletivo quanto à imposição da maternidade, uma vez que a perpetuação das marcas e atitudes do patriarcado, repressor em relação às vontades das mulheres, faz com que a cultura de enquadra-las numa posição de objetos reprodutores ausentes de vontade ou liberdade de escolha se foraleça. Sendo assim, sem se desprender deste legado histórico, o problema se perpetuará. Portanto, é imperativo agir sobre o problema.

Para isso, a Netflix deve criar um documentário que retrate as consequências e dificuldades de uma maternidade sem preparo - pessoal, financeiro e/ou psicológico - nas vidas da mãe e da criança gerada a partir da aparente obrigatoriedade social e biológica da mulher, a fim de reverter a má influência da mentalidade social que impera. Tal ação pode, ainda, contar com a contribuição de palestras escolares que ensinem os adolescentes sobre métodos contraceptivos e a importância de decidirem sobre suas próprias vontades e futuro. Paralelamente, é preciso intervir sobre o legado histórico do patriarcado. Logo, mais mães como Zoe - dispostas de vontade, consciência e planejamento - poderão surgir