Maternidade compulsória em debate no Brasil

Enviada em 23/08/2021

Desde o início da vida da mulher, com brincadeiras envolvendo bonecas com feições de bebê, ela é conduzida a acreditar que deve ser mãe. Nesse contexto, há uma construção na sociedade de que a mulher e maternidade são inseparáveis, assumindo um caráter compulsório, e tal cenário necessita de debate para desconstruir a normalização dessa problemática, que já esta inserida na estrutura da sociedade.

Nessa perspectiva, cabe ressaltar meios que perpetuam essa mentalidade da maternidade compulsória e, em concordância a isso, vê-se que no Sistema Universal de Saúde (SUS) é ofertado o procedimento de laqueadura, entretanto, para a mulher realizá-lo é necessário que já seja mãe de dois filhos vivos e, além disso, ter autorização do seu cônjugue, caso tenha um. Nesse âmbito, nota-se que a maternidade compulsória encontra raízes na burocracia do SUS, uma vez que a laqueadura permite que mulheres se tornem incapazes de serem mãe, de acordo com a própria vontade delas que, nesse caso, independente de já serem mães ou não, é o que deveria ser levado em consideração apenas.

Outrossim, vale destacar que, ainda de acordo com a ideia de que a própria mulher tem seu direito de escolha de recusar ser mãe infringido por estruturas da sociedade, há a ilegalização do aborto que, mais uma vez, promove a maternidade compulsória. No Brasil, o aborto é ilegal, salvo os casos de risco à vida da mãe e estupro, tal fato mostra que se uma mulher quiser interromper sua gravidez, mesmo que seja no início, ela não pode. Sob essa lógica de impedir um aborto, evidencia-se epsódios como o que ocorreu no ano de 2020, quando a militante bolsonarista Sara Winter organizou, via internet, um ato contra o aborto na frente de um hospital no qual uma menina, de 10 anos, retiraria um embrião gerado por um estupro. Diante disso, é necessário evidenciar que ser mãe, como uma obrigação para o sexo feminino, é retrógrado para a sociedade, e não há nenhum fato que afirme que deveria ser assim, apenas pensamentos embasados em religiosidade e subjetividade.

A escolha de ser mãe ou não, portanto, deve ser apenas da mulher. Para isso, a sociedade deve se mobilizar, por meio de redes sociais, para acabar com essa visão que sustenta a maternidade compulsória. Tal ação deve ser impulsionada pelos chamados “Influencers”, pois atingem um grande número de pessoas e, dessa forma, impactam como indivíduos formam suas opniões. Dessa maneira, por meio desta mobilização, deve-se descontruir a normalização da mulher ter que ser mãe, vendo que tal pensamento foi estruturado na sociedade por meio de uma cultura machista e fantasiosa da “família tradicional brasileira”. Assim, pais perceberão o quanto não deveriam influenciar suas filhas a brincar de ser mãe e, também, será um caminho para a mudança de burocracias que sustentam a temática.