Maternidade compulsória em debate no Brasil

Enviada em 23/08/2021

Machado de Assis - autor do conto “O Alienista” - critica, por meio do personagem Dr. Bacamarte, o olhar excessivamente naturalista em relação à mulher: um organismo dotado de capacidade reprodutiva. Tendo isso em vista, percebe-se que a obra Machadiana, mesmo após dezenas de anos, reflete o Brasil contemporâneo, haja vista que há uma pressão psicológica muito grande em relação a maternidade, a qual é imposta como um destino inevitável de muitas mulheres. Logo, é de suma importância analisar as causas e as consequências dessa realidade: o enraizamento ideológico e a submissão ao pensamento social.

De início, Gilberto Freyre - renomado escritor -, na obra “Casa-Grande e Senzala”, descreve a formação sociocultural brasileira: o homem era visto como o líder da família e a mulher era vista como um meio para a continuação da prole. Acerca disso, é visível que o relato de Freyre está presente na mentalidade dos indivíduos do século XXI, uma vez que “se tornar mãe” está cristalizado no ideal dos brasileiros, o que, mesmo indiretamente, obriga as moças a já se prepararem para a maternidade. Dessa forma, enquanto o pensamento de que a mulher é um meio para um fim se mantiver enraizado na população, a gravidez será vista como uma necessidade e não como uma vontade genuína.

Ademais, Michel Foucault - autor do livro “Vigiar e Punir” - afirma que o poder não está mais concentrado no meio político, mas sim está disseminado nos âmbitos do cotidiano. Nesse viés, a reflexão filosófica de Foucault se mostra presente no contexto brasileiro hodierno e se manifesta na maneira como o povo exerce uma forte influência na decisão da maternidade, dado que a escola, a família e até mesmo os círculos de amizade induzem, por meio de micropoderes, a decisão de que toda a mulher deve ter filhos. Ou seja, é nítido que o olhar naturalista em relação ao corpo feminino, semelhante ao de Dr. Bacamarte, impera na atualidade. Assim, é inaceitável que os brasileiros insistam em relacionar esse evento a uma obrigação, já que colabora com uma enorme pressão social em cima das jovens, o que faz com que elas vivam em constante submissão ao pensamento alheio.

Portanto, para que a decisão de se tornar mãe deixe de ser compulsória, o Estado deve diminuir a influência dos micropoderes sociais e proporcionar para as mulheres a liberdade de escolha, por meio da criação de projetos sociais, como oficinas e debates, que visem fortalecer a importância das meninas e moças exercerem as suas vontades e, consequentemente, definir qual futuro seguirão.  Essa iniciativa teria o intuito de diminuir a pressão social da maternidade, de sorte que a escolha de ser mãe passe a ser uma opção genuína e deixe de ser uma obrigação. Feito isso, a objetificação feminina, como exposta na obra de Freyre, deixará de ser, em breve, uma realidade no Brasil.