Maternidade compulsória em debate no Brasil
Enviada em 23/08/2021
A obra “O Alienista”, escrita por Machado de Assis, no século XIX, possui diversas críticas à sociedade realista da época. A fim de evidenciar tais incoerências, o escritor mostra Dona Evarista, esposa do personagem principal, que fora escolhida para o casamento por ser jovem e saudável, na intenção de gerar boa prole. No livro, o objetivo do marido para com a figura feminina não se concretizou, mas assim como foi com ela, outras mulheres ainda são reduzidas à situação da maternidade, sendo essa uma conjuntura histórica que ainda pressiona fêmas a viverem para isso.
Inicialmente, é importante destacar que a maternidade é, historicamente, um traço ligado à figura feminina. Porém, essa ligação não é, em geral, algo positivo, uma vez que nem sempre há escolha para a mulher sobre ter ou não filhos. Tal imposição é resultado da política patriarcal, na qual, desde os primórdios da socialização, submete mulheres como inferiores aos homens e as suas vontades, sejam eles pais, irmãos ou maridos. Esse hierarquização, mesmo que antiga, ainda representa o Brasil atual, e as jovens, ainda que vivendo em um mundo com mais direitos, como o exemplo dos métodos anticontraceptivos, sofrem com a pressão social para tornarem-se mães. Dessa forma, mostra-se incoerente permitir, de forma legal, a prevenção contra a gravidez, nos dias atuais, quando a sociedade ainda permanece com hierarquias e costumes arcaicos.
Em decorrência dessa esfera desigual, as brasileiras que recusam-se a serem mães enfrentam diversas pressões. Essa insistência não é vista, pelos olhos da sociedade, como algo maléfico, o que demonstra como esta enraizado o papel de mãe na mulher. A partir desse cenário, pode-se relacionar a situação com o conceito de Normose, do escritor Roberto Crema, que consiste em condenar atos que são normalizados pelas pessoas, mas que são patológicos, com a perturbação que existe na vida feminina para a entrada na maternidade. Assim, fica evidente que enquanto a intimidação sobre a vontade das jovens for banalizada, a liberdade de escolha será algo restrito às fêmeas que resistirem a esse sistema.
Logo, pode-se afirmar que a maternidade compulsória precisa ser extinta no Brasil. Para isso ocorrer, a mídia, veículo principal que difunde assuntos para todas as faixas etárias, deve retratar, em suas novelas e séries, finais felizes não só de mulheres sendo mães, como já ocorre de forma regular, mas sim jovens bem sucedidas e contentes com essa posição. Tal ação acontecerá a fim de fazer a sociedade enxergar que o sexo feminino não existe só para procriar e, com isso, parar com as pressões contra quem foge desse padrão. Só com essas medidas, o livre arbítrio pode existir para todos e histórias como a de Dona Evarista acabarão.