Maternidade compulsória em debate no Brasil
Enviada em 26/08/2021
O filme “Tully” retrata a história de Marlo: uma mãe com múltiplas tarefas de cuidados aos filhos a qual, sem amparo socioeducativo do pai, sente-se esgotada na realização dessas atividades.Fora da ficção, a realidade da personagem é com frequência observada no Brasil devido a maternidade compulsória, prática em que a mulher é doutrinada desde a infância à gestação. Dessa forma, esse cenário é fruto de raízes históricas e da má influência midiática, fatores que, alinhados, perpetuam o estigma que centra o sexo feminino como principal responsável pelo zelo da prole de um casal.
Diante desse contexto, é inegável que a sociedade é secularmente influenciada pelo patriarcalismo, o que contribui para que seja reservado à mulher a obrigatoriedade de maternar. Isso porque, muitas vezes, cultiva-se na coletividade o errôneo pensamento que enquadra o homem habilitado a serviços laborais, enquanto a criação dos filhos é destinada a mulher por esta supostamente ter determinado instinto biológico. Esse fator é contrariado pela filósofa francesa Elisabeth Badenter, a qual afirma na obra “O Mito do Amor Materno” que tal aptidão seria conquistada apenas na convivência, como ocorre na paternidade. Assim, esse paradigma é respaldado em amarras históricas que dissociam o compromisso dos genitores de uma criança que, para secundarizar o papel da mulher, afirma que ela possui primazia inata à maternidade, mesmo quando não a detém.
Outrossim, os meios de comunicação são responsáveis por incultir padrões na sociedade que naturalizam uma obrigação velada da mulher torna-se mãe.Essa conjuntura, quando não seguida, impõe ao sexo feminino uma discreta, e opressiva, violência simbólica, conceito criado pelo filósofo Pierre Bourdieu para caracterizar vítimas de hostilidades sutis na sociedade. A exemplo disso, são os discursos machistas que rotulam a mulher que não deseja ter filhos como egoísta, ou ainda, “frescurenta”. Desse modo, ela pode vir a sofrer uma segregação, visto que,projetado pelo cotidiano, o universo midiático cria uma gama de conteúdos que restringem a atuação do indivíduo que não adequa-se ao aceito como normal.
Portanto, o Ministério da Saúde, juntamente ao Ministério da Educação, deve elaborar um programa que, por meio de simpósios e da distribuição de cartilhas em locais públicos- por exemplo, escolas, hospitais e transportes- profissionais como psicólogos expliquem a necessidade de respeito a mulheres que não optaram pela gestação para que haja maior inclusão desse grupo na sociedade. Ademais, esse projeto deverá ser veiculado em emissoras televisivas por meio de campanhas que denunciem o preconceito sofrido pelas mulheres.Com isso, a curto prazo, se verá uma sociedade mais tolerante, em que a mulher terá a maternidade como sinônimo de escolha afetiva e não responsabilidade social. como ocorreu no longa.