Maternidade compulsória em debate no Brasil

Enviada em 18/11/2021

Em certa ocasião, o então Papa João Paulo II disse, em homenagem ao Dia das Mulheres, a seguinte frase: “a maternidade é a chave da identidade da mulher”. Nesse sentido, as palavras do homem religioso representam bastante bem a mentalidade brasileira, de forma geral, sobre o que significa nascer mulher no país. Por um lado, trata-se de um papel social, e por isso tem seu corpo sujeito ao controle de seus pares. Por outro lado, romantiza-se a maternidade – o que, de certa forma, leva à compulsoridade –, sem que se pense nas frustrações que sofrem as mães, por não serem perfeitas.

Nesse contexto, uma das funções sociais da maternidade é o controle sobre o corpo da mulher. De acordo com a famosa frase da filósofa francesa Simone de Beauvoir, em sua obra “O Segundo Sexo”, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Assim sendo, toda vez que nasce uma criança do sexo feminino, no Brasil e no mundo, ela é ensinada, desde logo, a agir conforme determinados parâmetros de comportamento. Ora, justamente o casamento e, por conseguinte, os filhos, são instituições pelas quais uma moça, espera-se, venha a almejar. Não raro, tão logo ocorrido o matrimônio, o domínio sobre o corpo feminino começa a operar na forma de cobranças por parte da sociedade. Fica naturalizado, dessa forma, o controle sobre a prole daquela mulher.

Ademais, a romantização da maternidade em detrimento de frustrações é um meio de facilitar o caminho para sua compulsoriedade. A fim de evitar falar de suas próprias fragilidades, muitas mães mostram apenas o lado bom desse momento da vida. De fato, são poucas as que comentam as dificuldades que existem por trás do “milagre da vida”, pois que são reprimidas pela sociedade. Aliás, poucos conhecem a existência do puerpério, momento que define o estado psicológico debilitado em que se encontra a mãe, após o parto. Logo, é notória a necessidade de haver maior discussão sobre o real cenário que é a maternidade, para que sejam evitadas tanto as gravidezes indesejadas, quanto as indevidamente planejadas.

Portanto, para que ocorra substancial melhora desse cenário, urge que o Governo Federal, por meio de alocação de verbas para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, faça a divulgação de campanhas de conscientização dessa precária situação, as quais devem ser voltadas para toda a população, trazendo situações reais de como funciona a maternidade. Somente dessa maneira, meninas, mulheres e mães poderão começar a se enxergar nos exemplos trazidos, e, assim, conseguirão ser livres para serem mães se quiserem, sabendo o que as aguarda – tanto as partes boas, bem como as dificuldades.