Moradores de rua no Brasil: uma questão social
Enviada em 21/10/2018
Em seu poema “o bicho”, Manuel Bandeira, sublime escritor modernista, retrata, horrorizado, a figura de um homem se alimentando de dejetos urbanos. Apesar de obras literárias não terem a obrigatoriedade de serem verossímeis, essa reproduz fielmente a realidade de muitos municípios. Torna-se progressivamente mais cotidiano encontrar moradores de rua nas cidades brasileiras vivendo em condições miseráveis e insalubres. Tal quadro é fruto, principalmente, dos diversos vícios que acometem a sociedade atual, e acentuado pelo preconceito social, que os indivíduos em situação de rua sofrem.
A priori, é interessante salientar que o fator determinante para o grande número de moradores de rua decorre do uso excessivo de entorpecentes e bebidas. De acordo com a Revista ISTOÉ, cerca de 36% das pessoas que não tem residência, se encontram em tal conjuntura devido ao alcoolismo e drogas. Ou seja, muitos indivíduos em suas incompletudes, e marcados por uma sociedade de laços frágeis, como Zygmunt Bauman trata em seu conceito: “sociedade líquida”, acabam aderindo a substâncias que causam dependência.Por conseguinte, para sustentar o vício, muitos homens vendem suas casas e outros bens materiais, e, por conseguinte, vão morar em locais públicos.
Ademais, os moradores de rua são excluídos e discriminados socialmente ,o que cria grandes empecilhos para a execução da cidadania desses. Muitas das pessoas em situação de rua são tratadas com repúdio ou como invisíveis pelo restante da sociedade, e esse comportamento foi claramente visto no caso noticiado pelo site de informes G1, quando dois moradores de rua morreram vítimas de hipotermia em março de 2018 na cidade de São Paulo. Essa indiferença, facilmente perceptível, é analisada por Hannah Arendt como banalidade do mal, e se resume a uma conduta notoriamente horrenda, mas visto como normal e, tranquilamente, consentida.
Destarte, torna-se evidente a complexidade da problemática, que permeia os moradores de rua, e mostra-se essa como uma questão social, e não meramente econômica. Portanto, é necessário que o Ministério da Saúde, órgão influente no bem-estar da população brasileira, aliado ao Poder Público, ofereça mais psicólogos no Sistema Único de Saúde (SUS), o que incentivará um maior cuidado com a saúde mental e tratará das causas que levam tantos indivíduos a se tornarem dependentes químicos ou alcoólatras. Outrossim, o Ministério Público, aparato responsável por defender os interesses sociais dos cidadãos, em conjunto com o Ministério da Educação, deve trabalhar em escolas o respeito aos moradores de rua, por meio de ações solidárias ou estudo de causalidade, para que o preconceito social seja combatido na “raiz”, ou seja, pelas crianças e que situações como a do poema “o bicho” não sejam mais vistas como comuns.