Moradores de rua no Brasil: uma questão social

Enviada em 22/08/2019

No poema “o bicho” de Manuel Bandeira, é retratado um homem que vive em meio ao lixo e a imundície, perdendo seu sentido de “humano” para passar a ser representado como um animal de rua. Esse homem era apenas um morador de rua faminto, que assim como apresentado nos versos, “não examinava nem cheirava, engolia com voracidade”. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Manuel Bandeira pode ser relacionada ao brasil do século XXI: gradativamente, a negligência governamental e a exclusão social referente aos cidadãos de rua corroboram à questão vigente.

Em primeiro lugar, é importante destacar a negligência governamental, bem como a ausência de políticas públicas como pilares fundamentais no estigma apresentado. Segundo a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 6, é dever do Estado garantir o acesso à moradia e ao bem-estar social de todos os cidadãos brasileiros. Conquanto, o Poder Executivo não efetiva esse direito, tendo em vista uma pesquisa realizada pela prefeitura do Rio de Janeiro, em que mais de 500 mil pessoas necessitam de um lar. Diante do descrito, é um equívoco não considerar a imperativa ação para mitigar esse estorvo.

Por conseguinte, presencia-se uma forte relação do tema exposto com a exclusão social, termo que caracteriza o distanciamento de uma pessoa ou grupo que esteja em situação vulnerável em proporção com a sociedade, haja vista a segregação social dos indivíduos que vivem nas ruas. De acordo com o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, na obra “Modernidade Líquida”, há a discussão acerca da fragmentação das relações interpessoais, em que a individualidade se dá em detrimento do coletivo, isto é, a perda do coletivismo em face do individualismo. Soma-se a isso, a ideia de empatia seletiva, conceito relacionado à seleção de solidariedade e o pensamento blasé, uma atitude de indiferença a algo. Diante de tal contexto, a falta de inclusão social e a indiferença das pessoas, elucida o processo de afastamento social vivenciado pelos cidadãos de rua.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para a conscientização da população brasileiro a respeito do problema, urge que o Ministério dos Direitos Humanos, em parceria com a mídia, produza, por meio de propagandas, campanhas de conscientização que explicitem as condições dessas pessoas em vulnerabilidade, com o objetivo de reduzir o preconceito e a exclusão social, além de incentivar a solidariedade. Ademais, cabe também ao governo, por intermédio de verbas governamentais, promover programas voltados às casas de acolhimento, em que atuam na alimentação, moradia e assistência social, além de capacitação e cursos relacionados ao mercado de trabalho, com o intuito de cessar os impasses travados. A partir dessas ações, espera-se que os homens famintos de Manuel Bandeira permaneçam apenas na literatura.