Moradores de rua no Brasil: uma questão social

Enviada em 19/10/2019

Ampliando a noção do termo “aridez”, Graciliano Ramos, autor de Vidas Secas, aborda em sua obra existências escassas de uma vida digna. Não distante da ficção, nos dias atuais, milhares de desabrigados no Brasil enfrentam as dificuldades que os levaram a morar nas ruas, entre as quais a falta de oportunidades devido à baixa escolaridade e o uso compulsivo de alucinógenos e bebidas alcóolicas como forma de escape da realidade em que se encontram.

Em primeiro plano, a educação deficitária da maioria das pessoas em situação de rua dificulta a obtenção de um emprego e, consequentemente, de uma futura estabilidade financeira. Com os avanços tecnológicos e o acirramento da competitividade no mercado laboral, devido à preferência por candidatos mais qualificados, conseguir um trabalho tem se tornado cada vez mais difícil. Segundo o pensador brasileiro Paulo Freire, a escola é uma oportunidade de reversão de uma lógica opressora vivida por inúmeros segmentos sociais. Sob essa perspectiva, verifica-se o impacto positivo do ensino no acesso a melhores condições de vida por essa parcela da população.

Ademais, a dependência do uso de drogas impede que uma boa parte dos desabrigados tenham alguma perspectiva de mudança de vida. De acordo com a revista Istoé, quase 40% deles vivem nas ruas devido ao uso descontrolado de alucinógenos e de álcool, o que, muitas vezes, resulta em uma rejeição pela família e pela sociedade em geral, além de um gasto desenfreado na sustentação do vício. Em uma reportagem do Globo Repórter, um professor de inglês que dava aulas em duas escolas virou sem-teto para não ter condições de comprar cocaína e fugir do preconceito dos pais. Dessa forma, evidencia-se os efeitos nocivos da dependência de tais substâncias no bem-estar desses indivíduos.

Portanto, torna-se necessário que o Estado, em parceria com a iniciativa privada, tome providências para amenizar o quadro atual. O Ministério da Educação deve, por meio de verbas governamentais, investir na continuação do ensino público das pessoas em situação de rua, a partir do oferecimento de cursos de diversos níveis, desde a alfabetização até um curso técnico, com professores qualificados e exames semestrais que avaliem o grau de aprendizado dos estudantes. Além disso, é preciso realizar campanhas publicitárias que atenuem o preconceito da sociedade em relação a essas pessoas e palestras sobre as consequências do uso das drogas e dos benefícios da educação na vida dos cidadãos. Dessa forma, essas pessoas poderão diminuir a “aridez” da qual são vítimas.