Moradores de rua no Brasil: uma questão social
Enviada em 20/10/2019
O poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira, trata sobre um “bicho” à procura de alimento no meio de detritos que, quando encontrava alguma coisa, engolia de forma voraz, sem cheirar ou examinar. Enfim, para a surpresa dos leitores, o “bicho” era um ser humano. A partir da análise deste poema produzido em 1947, é possível afirmar que a existência de moradores de rua não é um problema atual, mas uma questão social agravada pela naturalização e pelo preconceito contra pessoas em situação de rua.
A priori, vale ressaltar que os moradores de rua são tratados, muitas vezes, como consequências naturais do capitalismo. Segundo Durkheim, fatos sociais são modos de agir e pensar impostos pela sociedade sobre os indivíduos. De maneira análoga ao pensamento do sociólogo, nossa população sofre grande influência do modo de produção capitalista, o qual possui como grandes pilares a acumulação de capitais e, consequentemente, a divisão da sociedade entre aqueles que têm e os que não têm. No entanto, essas desigualdades sociais, expressas no exorbitante número de pessoas sem acesso a direitos básicos como moradia e educação, são passadas como naturais, ou seja, como fatos sociais. Dessa forma, as pessoas em situação de rua são tratadas como consequências inevitáveis e, na maioria das vezes, ignoradas não só pelos cidadãos, como também pelo próprio Estado.
Ademais, o preconceito de muitos cidadãos em relação aos moradores de rua é fator determinante para a persistência da problemática. Embora uma pesquisa divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome confirme que a população em situação de rua é extremamente heterogênea, visto que é composta por jovens, idosos, brancos e negros moradores de rua por diversos motivos, grande parte dos cidadãos brasileiros persiste com a preconceituosa associação entre situação de rua e criminalidade. Infelizmente, essa associação pejorativa gera homogeneização e desumanização das pessoas em situação de rua – vistas como prejudiciais à sociedade – e passa a servir de justificativa para a realização de atos cruéis contra essa parcela excluída da sociedade – casos como os de pessoas capazes de atear fogo em moradores de rua.
Portanto, medidas são necessárias para amenizar essa vicissitude. Urge que as escolas de ensino fundamental e médio, por meio de verbas governamentais, realizem atividades lúdicas, como projetos interdisciplinares que contem com a participação de sociólogos e historiadores que possibilitem a destruição de afirmações pejorativas sobre moradores de rua, além da presença de pessoas em situação de rua que possam compartilhar suas histórias. Nesse sentido, o intuito dessa ação é resgatar a noção de que moradores de rua são seres humanos com os mesmos direitos e deveres de qualquer outro cidadão brasileiro.