Moradores de rua no Brasil: uma questão social
Enviada em 28/10/2019
Vidas nuas
A sacralidade da vida, como um direito humano fundamental, se contrapõe à ética moderna, desde Kant, em que a norma do dever fomentada por valores capitalistas cria um cenário de marginalização social. A dimensão do número de moradores de rua evidencia um molde de sistema incompatível e precário com a luta pelo bem comum, o que se deve à fatores como a ausência estatal frente à uma justiça social e ao individualismo implementado na lógica liberalista.
Em primeira instância, a economia moderna calcada no complexo de posse e da propriedade privada promove deliberadamente uma “criminalização” da pobreza o que ratifica a quantidade crescente de indivíduos abandonados à própria sorte tendo que encontrar nas ruas seu “lar”. A falta de políticas públicas que atendam essa fatia populacional, grosseiramente chamados de “mendigos”, mostra a vulnerabilidade do cidadão, são “vidas nuas”, como dito pelo filósofo Giorgio Agamben, corpos expostos em toda sua precariedade à exploração.
Ademais, o papel civil consciente na luta pela moradia à todos também apresenta-se comprometido face à condutas inerentes aos novos ideais, como o individualismo. Um aspecto de desfecho na produção da sociedade é a emancipação intencional que as classes mais altas realizam com as que se encontram abaixo, isso fere no poder de ação total que poderia vir a ocorrer para solucionar ou ao menos amenizar essa preocupante situação de abandono.
Evidencia-se, portanto, a escassez de ações que visem resgatar o cidadão em circunstância de rua. A fim de mitigar essa problemática e reintegrar tais vidas como membros efetivos da sociedade, secretarias municipais e estaduais devem oferecer um número de abrigos, que contemple demograficamente, onde serviria não só como dormitório mas com o papel de atuar na capacitação e empregabilidade dos seus residentes com a orientação de redes de ensino e ONGs engajadas em questões inclusivas. Aumentam assim as chances de se alcançar uma cidadania realmente legítima e plural, tornando possível o sonho da casa própria.