Moradores de rua no Brasil: uma questão social
Enviada em 19/03/2020
No poema “O bicho” de Manuel Bandeira, o eu lírico fica abismado com um ser vivo que estava na imundice do pátio, catando comida entre os detritos, porém, não era gato, tampouco um rato, era um homem. Nesse sentido, a situação evidenciada por Bandeira, da população em situação de rua, representa a incapacidade, de grande parte das esferas públicas, de assegurar direitos inerentes ao ser humano - como a segurança, a alimentação e a propriedade privada. Desse modo, há de se desconstruir a ideia de que existe uma infraestrutura adequada, bem como as consequências relacionadas à marginalização desse grupo social.
Em primeira análise, uma das principais causas para esse contingente de pessoas estarem nas ruas é a ínfima quantidade de abrigos e albergues nos estados e, muitas vezes, com qualidades duvidosas.
Nesse viés, o documentário “Eu existo” demonstra a situação de vida de Cícera, uma pessoa que mora na rua, e por quais motivos ela prefere ficar na rua do que em albergues, o relato deixa explícito a má qualidade desses lugares. Essa delicada problemática, denunciada pelo documentário, vai ao antagonismo do Art. 5 da Constituição Federal, o qual prevê direitos fundamentais sem distinção de qualquer natureza. Desse modo, não é razoável que um país considerado heterogêneo almeje garantir a igualdade, mas mantenha boa parte da população excluída.
Outrossim, os efeitos da problemática tangenciam ideias pré-estabelecidas acerca dessa população vulnerável e, muitas vezes, são atacadas fisicamente e verbalmente. De acordo com o site de notícias R7, um homem de 56 anos sofreu queimaduras em Santos, no litoral do sul de São Paulo, o homem teria cometido a agressão por suspeitar que o morador de rua tenha roubado um celular. O caso relatado pelo R7 não é a exceção, isto é, a população nessa situação é tratada com descaso pela sociedade e, por conseguinte, há um sentimento de invisibilidade, o qual pode evoluir para uma possível depressão. Em suma, é incompreensível o fato de que o ser humano mesmo tendo passado pelo século anterior, o qual foi o da intolerância, ainda assim exista tamanha falta de empatia.
Evidencia-se, portanto, a falta de subsídios para combater essa questão social. Logo, as ONGs, com auxílio da mídia, devem abrigar e mudar os estigmas - o qual são ladrões, preguiçosos, etc - acerca desse grupo social, por meio da alugação de apartamentos “normais” e de campanhas publicitárias que evidenciam a igualdade perante a lei, a mídia é um meio de comunicação com alcance quase ilimitado, tendo a internet como propulsora, a fim de diminuir o número de pessoas desabrigadas. Dessa maneira, as consequências negativas aos sem-tetos serão mitigadas, e irá impedir que os indivíduos, em contrapartida como ocorreu no caso do poema “O bicho”, vejam a calamidade nas ruas do Brasil.