Moradores de rua no Brasil: uma questão social

Enviada em 21/04/2020

No experimento científico-social “Universo 25”, o pesquisador John B. Caulhon elaborou uma cúpula utópica para ratos, a fim de observar o desenvolvimento de uma sociedade. Entretanto, ao decorrer dos dias, foi evidente que, dentre outros problemas, alguns indivíduos eram constantemente segregados das tocas - locais destinados ao sono dos animais -, sobretudo, em razão de facetas sociais. Fora dessa mera analogia à humanidade, hoje, no Brasil, presencia-se uma conjuntura nefasta acerca das pessoas em situação de rua, consoante aos ratos marginalizados de Caulhon. Dessarte, é fulcral depreender o tipo de violência exercida sob os moradores de rua, o que incita uma nítida aversão a tais seres humanos.

De início, afirma-se que a “Violência Simbólica” é a força motriz para a problemática. Tal teoria do sociólogo francês Pierre Bourdieu preconiza que a sociedade atual molda-se mediante o poder que cada cidadão transparece, de forma que, mesmo que intrinsecamente, uma espécie de agressão circunda as relações sociais. No entanto, os moradores de rua, sob esse prisma, são as principais vítimas de tal, mormente, em razão da posição de vulnerabilidade na qual esses se encontram. Logo, é notório que essa violência é o ponto de partida que marginaliza tanto os ratos de “Universo 25”, quanto os cidadãos de rua no país.

Por conseguinte, enquanto essa agressão simbólica perdurar, o contexto dos moradores de rua assemelha-se, cada vez mais, à aversão social de “Queda Livre”. Nesse episódio da série “Black Mirror”, todas as pessoas são escalonadas, socialmente, em virtude de uma dinâmica de avaliações, a qual, ao longo do curta, mostra-se tortuosa. Isso porquanto, em tal ficção, emplaca-se um preconceito ubíquo aos que possuem avaliações mais baixas, as quais, conforme a protagonista perpassa contextos menos abastados, evidenciam-se condizentes às classes sociais. Nesse sentido, como os moradores de rua constituem um arcabouço social que se aproxima da miséria, uma aversão a esses se torna inerente aos demais cidadãos, mesmo que sem a dinâmica de “Queda Livre”.

Portanto, visto a intempestividade da problemática, infere-se que medidas são necessárias para dissolver as mazelas atreladas à conjuntura supracitada. Para tanto, compete à sociedade o dever de criar e  divulgar campanhas, por meio das redes sociais, as quais evidenciem e exaltem a condição de vítima imposta aos moradores de rua, de forma a conscientizar toda a população, a fim de eliminar a violência simbólica, pelo menos a qual circunscreve tais pessoas, e de acabar com as intempéries do problema. Destarte, observar-se-ia uma sociedade que, mesmo que constituída parcialmente por pessoas em situação de rua, diverge dos entraves sociais que assemelham-a ao “Universo 25”.