Moradores de rua no Brasil: uma questão social

Enviada em 26/09/2020

Na obra “Utopia”, do escritor e filósofo inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, fora da ficção, o que se observa no Brasil é o oposto do que o autor prega, uma vez que a precária realidade dos moradores de rua, fomentada pela exclusão social e pela pouca preocupação das autoridades com esses indivíduos apresenta barreiras, as quais dificultam a concretização dos planos de More. Assim sendo, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim do pleno funcionamento da sociedade.

Primeiramente, é imprescindível destacar que os moradores de rua são alvos de forte exclusão social, a qual pode ser relacionada com os mitos e preconceitos envolvendo essa parcela da população. A esse respeito, cita-se a crença errônea chamada de “mito do ser masoquista”, em que é atribuído ao próprio morador de rua a escolha de estar naquela circunstância, limitando o problema à apenas opção e, dessa forma, bastaria o indivíduo querer sair daquela vida, não levando em conta as dificuldades físicas, emocionais e, principalmente, econômicas para isso. Nesse sentido, vê-se a discriminação com os sem-teto como estorvo em sua reinserção na sociedade.

Ainda, pontua-se que a problemática deriva da baixa atuação dos setores governamentais no que concerne a criação de mecanismos que coíbam tais recorrências. Segundo o filósofo inglês Thomas Hobbes, o estado é responsável por garantir o bem-estar da população, entretanto, isso não ocorre no Brasil, haja vista que não há nenhum programa realmente efetivo que tenha como finalidade oferecer meios aos indigentes para que tenham chances de se tornarem cidadãos dignos e participantes sociais. Fato esse mostra-se verdadeiro ao observar um levantamento realizado pelo Movimento Nacional da População em Situação de Rua, o qual estima que, em 2019, cerca de 40 mil pessoas viviam nas ruas da cidade de São Paulo, enquanto que, em 2015, o número de indigentes na metrópole era pouco mais de 15 mil. Desse modo, faz-se mister a reformulação dessa postura estatal de forma urgente.

Portanto, cabe ao Estado, por meio do Ministério da Cidadania (MDS), criar e efetivar projetos que, ao mesmo tempo que disponibilizam moradia aos sem-abrigo, apresentam caminhos para a recuperação de sua cidadania, com aconselhamento financeiro e pessoal, a fim de tirá-los permanentemente das ruas. Ademais, com o mesmo objetivo, o MDS deve, por intermédio de verbas governamentais, investir em políticas de prevenção ao uso de drogas, ministradas por profissionais da área. Assim, a realidade dos moradores de rua no Brasil seria, em médio e longo prazo, aprimorada, e a coletividade estaria um passo mais próxima da Utopia de Thomas More.