Moradores de rua no Brasil: uma questão social
Enviada em 22/06/2021
No poema “O Bicho”, o escritor Manuel Bandeira discorre sobre a animalização do homem ao denunciar a situação dos indivíduos que buscam no lixo a sua alimentação. Apesar das palavras do autor apresentarem caráter fictício, tal realidade se faz presente na contemporaneidade, haja vista que mais de 200 mil pessoas vivem em situação de rua no país, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Sob essa perspectiva, a falta de empatia da população, bem como a histórica concentração de renda existente no Brasil demonstram a necessidade de atuação da sociedade e do Estado para conter essa mazela social.
Primeiramente, é importante notar que a aceitabilidade da população com a situação precária do país persiste intrinsecamente relacionada à lógica individualista. Segundo o sociólogo George Simmel, a intensificação do mundo globalizado induz a sociedade a adotar “atitudes de reserva” para se distanciar das emoções cotidianas. Desse modo, a indiferença dos indivíduos aliada à defasagem de um ideal nacional para unir o povo brasileiro resulta a formação de pessoas que vivem somente de acordo com as suas convicções. Com isso, tal conjuntura fomenta as disparidades sociais entre os assalariados e aqueles em condição de pobreza absoluta, uma vez que os indivíduos se negam a oferecer ajuda ao próximo devido a divergência entre os seus ideais e, por conseguinte, permanecem imóveis na resolução das mazelas no território brasileiro.
Ademais, o histórico de concentração de renda é um dos fatores da exclusão social que reflete na população em situação de rua. No período colonial, a adoção de Sesmarias - grandes faixas de terra - à uma ínfima parcela da população gerou a desigualdade no território brasileiro. Aliado a isso, a não realização de políticas de redistribuição de terras pelo governo agravou a situação de disparidade. Nesse sentido, a vista de tal problemática, a priorização de alguns indivíduos em detrimento de outros dificultou a mobilização das camadas sociais e, dessa forma, a insuficiência do amparo do Estado induz os grupos estigmatizados a utilizarem as ruas das cidades como moradia, já que não dispõem de renda suficiente para conseguir espaços adequados para habitação.
Portanto, cabe à sociedade, em parceria com Organizações Não Governamentais (ONGs), atuar na distribuição de alimentos, cobertores e produtos de higiene para pessoas em situação de rua, pelo menos uma vez na semana em todas as capitais do Brasil, com objetivo de criar uma corrente de empatia e valorização da vida entre os indivíduos. Por fim, cabe ao Estado conceder moradias permanentes e assistência social aos moradores de rua, com intuito de ajudá-los a colocar a vida nos eixos. Assim, a realidade descrita por Manuel Bandeira fará parte apenas da literatura.