Moradores de rua no Brasil: uma questão social

Enviada em 06/09/2021

“O bicho, meu Deus, era um homem”. O cenário descrito no poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, onde o homem, animalizado pela situação, torna-se irreconhecível aos olhos do eu lírico, retrata alegoricamente a triste realidade de muitos brasileiros. Nesse contexto, observa-se a perpetuação da questão social que envolve esses indivíduos em situação de rua devido tanto à negligência estatal quanto à ignorância da população, resultando na invisibilização desses.

Sob tal viés, cabe notar, primeiramente, que o desinteresse do Estado em promover mudanças nesse quadro é a força motriz das demais adversidades relacionadas a essa temática. No entanto, apesar da postura omissa dos governantes, é direito previsto na Constituição Federal de 1988 o acesso à educação, saúde, alimentação e moradia a todos os cidadãos, incluindo aqueles em situação de rua. Nessa perspectiva, esse descaso com tal parcela da sociedade resulta no agravamento do problema a longo prazo, com o aumento da violência e o aparecimento de vícios, dificultando, cada vez mais, sua resolução. Desse modo, apesar de ser papel da União cuidar dos brasileiros como um todo, alguns são ignorados por esses que estão no poder, suprimindo seus direitos e relegando-os ao esquecimento.

Além disso, o oblívio social resultante da omissão governamental normaliza a condição desses indivíduos. Isso porque, acostumados à presença de pessoas “morando” nas ruas, a população já não nota o significado por trás dessas condições degradantes e passam a naturalizá-las, agravando o cenário por também não se envolvem para tentar saná-lo. Tal comportamento é ilustrado de modo alegórico na saga “Percy Jackson”, do autor Rick Riordan, no qual os monstros desse universo são ocultados dos olhos comuns por uma magia que, segundo os personagens, só funciona graças à propensão humana de não questionar o que vê. Dessa forma, nota-se que é devido a esse comportamento que esses marginalizados são apagados da realidade cotidiana e têm sua situação mantida eternamente pela ignorância voluntária do corpo social.

Portanto, podemos concluir, que essa problemática social tem origem na negligência do Estado que, ao não interferir adequadamente, suscita um sentimento de normalização na população em geral. Por esse motivo, é fundamental que o governo federal promova medidas que ofereçam condições dignas a essas pessoas através da oferta de abrigos permanentes e geração de emprego para os mesmos, de forma a permitir sua reinserção na sociedade. Ademais, cabe também ao Ministério da Educação atuar em escolas visando abrir os olhos da população desde a tenra idade para o problema por meio de projetos sociais, incentivando-os a participar da luta contra essa questão. Somente assim, essas pessoas poderão finalmente ser reconhecidas como cidadãos, e não como bichos da fauna urbana.