Novas formas de totalitarismo na era tecnológica.
Enviada em 16/02/2020
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. O romance “Ensaio sobre a cegueira” (1995), do escritor português José Saramago, aborda – através da metáfora de uma epidêmica “cegueira branca” – a incapacidade dos seres em identificar e solucionar as adversidades tão claras da pós-modernidade. Essa morte da Razão Crítica – analisada também pelos pensadores alemães frankfurtianos – é constatada fora do ambiente ficcional no inexpressivo posicionamento dos atores sociais diante das novas formas de totalitarismo na era tecnológica. Com isso, fatores contribuem para a persistência dessa problemática: a ação arbitrária governamental e a letargia da sociedade civil. Por conseguinte, hão de ser analisados esses entraves, a fim de solucioná-los com eficácia.
Em princípio, é imperioso destacar o uso da tecnologia para fins de monitoramento e controle social em diversos governos do mundo. Nesse contexto, segundo o filósofo alemão Max Horkheimer, o avanço dos recursos técnicos da informação acompanha-se de um processo de desumanização. Dessa maneira, os veículos de comunicação – em especial a internet pelo seu grande poder de alcance e interação com o público alvo – têm cada vez mais se tornado aliados de governos nacionais e internacionais na estruturação de políticas que, em virtude da manipulação informacional, acabam por cercear a liberdade de pensamento e expressão dos cidadãos. Logo, é substancial a alteração desse quadro que vai de encontro à instauração de um pluralismo social.
Ademais, é importante pontuar o imobilismo da comunidade civil como um impedimento para a superação de ações totalitárias na era tecnológica. A esse respeito, de acordo com o filósofo alemão Jurgen Habermas, são as pessoas quando falam entre si, e não quando ouvem, leem ou assistem os meios de comunicação de massas, as que realmente fazem a opinião mudar. No entanto, por exemplo, o medo gerado na sociedade por imagens e vídeos violentos que circulam nas mídias digitais somado à sensação de insegurança tornam os seres passivos a esses sistemas. Assim, faz-se mister a reformulação dessa visão social acometida pela “cegueira branca” descrita por José Saramago.
Depreende-se, portanto, a necessidade de se combater as novas formas de totalitarismo na era tecnológica. Para tanto, cabe à Escola – instituição social responsável pela formação dos cidadãos – trabalhar formas de conhecimento, habilidades e relações sociais que promovam as condições para a emancipação dos indivíduos. Tal ação deve ser realizada por meio do fomento ao Projeto Político Pedagógico (PPP) que inclua o debate acerca das diversas facetas de utilização das mídias digitais, com o fito de formar jovens politicamente atuantes. Dessa forma, como mencionou Saramago em sua obra, não será necessário que todos fiquem cegos para que se possa enxergar a realidade.