Novas formas de totalitarismo na era tecnológica.
Enviada em 17/03/2020
“Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea”. Essa famosa frase do filósofo francês Gilles Deleuze evidencia um novo tipo de sociedade de controle, na qual a disciplina passou a ser imposta virtualmente. De fato, os intensos avanços tecnológicos permitiram que dispositivos de poder adquiram maior fluidez e possam atuar amplamente em todas as esferas da sociedade. Sendo assim, faz-se necessária a discussão de como a era tecnológica facilitou o surgimento de novas formas de totalitarismo empregando, principalmente, os meios de comunicação como principal ferramenta para a manipulação dos indivíduos.
Inicialmente, evidencia-se como a internet, suposto meio de emancipação que quebrou barreiras para um mundo mais globalizado e democrático, permitiu o cresimento exponencial de armazenamento de informações. Para o ativista Julian Assange, tal ferramenta “está sendo transformada no mais perigoso facilitador do totalitarismo que já vimos”. Decerto, nota-se que os usuários de redes sociais sentem uma falsa sensação de liberdade ao compartilhar informações de cunho pessoal em busca de aceitação e inserção nos padrões definidos pela sociedade. Essa imensa disponibilidade de informações permite que, não apenas o governo, mas também outras pessoas possam ter acesso a dados pessoais dos usuários, facilitando a manipulação da opinião pública para fins políticos, inclusive. Nas eleições estadounidenses de 2016, por exemplo, o Instagram teve um papel fundamental na divisão da opinião do eleitorado e promoção do Partido Republicano, de acordo com um relatório divulgado pelo Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos.
Outrossim, nota-se como o futuro distópico concebido por George Orwell em sua obra “1984” torna-se gradualmente real na sociedade contemporânea. Por certo, a teoria do panóptico desenvolvida por Foucault pode ser facilmente observada nesse âmbito. De fato, o desenvolvimento dessa Sociedade Disciplinar que monitora as atitudes de seus cidadãos e, inclusive, premia seu bom comportamento, é a perfeita descrição de um novo plano chinês, noticiado pela BBC. Isso, indubidavelmente, explicita a aplicação da tecnologia a favor do totalitarismo neocomunista na China.
Portanto, infere-se que a Organização das Nações Unidas (ONU), através do Conselho de Segurança, deve desenvolver uma constituição global sobre o asunto, com punições bem definidas quanto ao uso invasivo das tecnologias e instruções claras sobre o nível de dados pessoais que podem ser expostos, a fim de resguardar a privacidade dos cidadãos. Dessa forma, com a clara delimitação entre o público e o privado, seria possível que as nações saíssem da sociedade de controle definida por Deleuze.