Novas formas de totalitarismo na era tecnológica.
Enviada em 11/05/2020
Em sua obra “As origens do totalitarismo”, a filósofa Hannah Arendt analisa as motivações e os processos que levam à distorção da liberdade de escolha e o ataque à pluralidade de ideias nos sistemas totalitários. Atualmente, na era tecnológica, temos novas formas de totalitarismo, que são disseminadas no meio virtual. Com o avanço de algoritmos e mecanismos de controle de dados desenvolvidos por empresas de aplicativos e redes sociais, as informações e produtos culturais vêm sendo cada vez mais direcionados a fim de moldar os hábitos dos usuários. Desse modo, tal manipulação do comportamento dos indivíduos pela seleção prévia de dados é inconcebível e merece um olhar mais crítico de enfrentamento.
Em primeiro lugar, é válido reconhecer como o panorama supracitado é capaz de limitar a cidadania do indivíduo. Acerca disso, é pertinente trazer o livro “1984” de George Orwell, no qual é retratado um futuro distópico em que um Estado totalitário controla e manipula toda forma de registro histórico e contemporâneo, a fim de moldar a opinião pública a favor dos governantes. Assim, sabendo que a cidadania consiste na luta pelo bem-estar social, caso os sujeitos não possuam um pleno conhecimento da realidade na qual estão inseridos, já que suas fontes de informações estão direcionadas, eles serão incapazes de assumir plena defesa pelo coletivo. Logo, a restrição de informações disponíveis e a influência comportamental do público não podem ser aceitas em nome do combate ao individualismo e do zelo pelo bem grupal.
Em segundo lugar, vale salientar como o controle de dados pela internet vai de encontro à concepção do sujeito pós-moderno. Isso porque, de acordo com o filósofo Baüman, vive-se atualmente um período de liberdade ilusória, já que o mundo globalizado não só possibilitou novas formas de interação com o conhecimento, mas também abriu portas para a manipulação e alienação semelhantes vistas em “1984”. Assim, os usuários são inconscientemente analisados pelos sistemas e lhes é apresentado apenas o mais atrativo para o consumo pessoal. Por fim, seria negligente não notar como a tentativa de tais algoritmos de criar universos culturais adequados a um gosto de seu usuário criam uma falsa sensação de livre-arbítrio e tolhe as múltiplos identidades que uma pessoa poderia assumir.
Portanto, são necessárias medidas capazes de mitigar o totalitarismo tecnológico. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação, ramo do Estado responsável pela formação civil, inserir, nas escolas, desde a tenra idade, a disciplina de Educação Digital, de cunho obrigatório em função da sua necessidade, além de difundir campanhas instrucionais, por meio das mídias de grande alcance, para que o sujeito aja corretamente segundo as próprias necessidades e escolhas.