Novembro Azul - Desafios para a conscientização social quanto à saúde masculina

Enviada em 27/11/2020

Culturas nacionais como a gaúcha e a nordestina ajudaram a construir, no imaginário popular, a visão dos homens brasileiros fortes e resistentes às condições ambientais, a exemplo dos sertanejos e dos homens do pampa. Contudo, invariavelmente, foram, também, determinantes para estabelecerem estereótipos comportamentais masculinos, como o descaso com a necessidade de atenção à saúde. Deve-se, pois, analisar os vieses cabíveis a fim de esclarecer os motivos que levam a uma condição de negligência da saúde masculina no Brasil.

O sociólogo Émile Durkheim teorizou o chamado “fato social”, que seria a influência e a expectativa dos meios de convívio no tocante a padrões comportamentais. O machismo, exemplo de fato social, auxilia na composição desse cenário ao associar o cuidado atento com a saúde a uma suposta “fragilidade” por parte do indivíduo, uma vez que o padrão masculino de resistência e força estaria sendo quebrado ao realizar qualquer tipo de exame, atestando a ausência da masculinidade. Logo, devido a essa associação preconceituosa, uma parcela de homens, subjugados às pressões inerentes ao convívio social e toda a carga cultural envolvida, rejeitam cuidados médicos e acompanhamento de rotina de sua saúde, tornando-se potenciais vítimas de doenças não diagnosticadas em tempo hábil.

Não obstante, cabe analisar a negligência governamental em relação às práticas de saúde pública masculina. A Constituição Federal de 1988 garante, em seu artigo 6º, o acesso isonômico aos ditos “direitos sociais”, constando entre eles o direito à saúde. Entretanto, forma-se um paradoxo ao analisar-se que, apesar da alcunha de “Cidadã”, a Constituição não consegue garantir e prover a todos os cidadãos as diretrizes recomendadas pelo Ministério da Saúde, em especial aos cuidados com os homens, uma vez que raras são as campanhas cujo enfoque é tal grupo, evidenciando a desigualdade histórica enfrentada na tentativa de acesso e informação sobre programas governamentais de promoção das práticas de cuidado com o organismo.

Portanto, mostra-se primaz a necessidade de efetivação de medidas atenuantes dos fatores culturais que tolhem a informação e o acesso às temáticas de saúde do homem. O Ministério da Saúde deve, aos moldes da campanha nacional do “Outubro Rosa”, instituir campanhas, também nacionais, do “Novembro Azul” nas escolas, Unidades Básicas de Saúde e Centros Comunitários por meio da realização de palestras, distribuição de informativos - com o fito de conscientizar a população acerca da necessidade de realização de exames regulares - bem como maratonas de análises patológicas gratuitas para populações periféricas. Dessa forma, é possível desestigmatizar a temática, fazendo com que as práticas constitucionais de cidadania sejam exercidas em plenitude no Brasil.