O abuso de álcool na sociedade brasileira
Enviada em 16/09/2019
“Baco”, pintura de Caravaggio, é o retrato do jovem deus romano oferecendo uma taça de vinho, sua célebre invenção, a quem o contempla. A festa do Bacanal era seu maior tributo na Roma Antiga. Milênios depois, o vinho e inúmeras bebidas alcoólicas ainda permanecem, para diversos fins e ocasiões, muito apreciados. Porém, seu uso excessivo na sociedade brasileira tem gerado impactos negativos, sobretudo na saúde pública. Paralelamente, a gênese do abuso de álcool é complexa e variada, exigindo que autoridades públicas criem medidas para conter tal problema, desde sua origem.
Acerca de tal cenário, a Organização Mundial da Saúde afirma que o Brasil superou o consumo mundial de álcool em 2016, 8,9 litros por pessoa, quando a média global foi de 6,4 litros. Dados assim, demonstram a existência do consumo abusivo, que ramifica-se em danos pontuais como a perda de lucidez e senso de direção, mas, não raramente, em problemas de maior envergadura com o passar dos tempo: câncer, doenças hepáticas, depressão e dependência. Consequentemente, serviços públicos (SUS) acabam por despender dinheiro para tratar tais doenças, que poderiam ser amenizadas ou erradicadas pelo sóbrio uso de bebidas etílicas. Segundo o Ministério da Saúde, anualmente se gasta US$8 milhões para este fim, enquanto que, pacientes de doenças congênitas, patogênicas, genéticas e afins, poderiam ser melhor tratados caso tivessem esses mesmos investimentos.
Não obstante, vários são os gatilhos para se beber inconsequentemente, expondo o indivíduo a um futuro vício. Entre os mais jovens, por exemplo, seja por pressão ou por mera socialização, tomar álcool é um signo de interação e, até mesmo, de afirmação social. Sob tais circunstâncias, o limiar entre consumo saudável e o inebriamento se torna tênue, em virtude da euforia e coação. Ademais, situações como endividamento, conflitos familiares, desemprego e perda de entes queridos são fatores críticos, pois induzem à busca de um escape psicológico. Na obra “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry, o Bêbado embriaga-se exatamente para esquecer que tem vergonha de seu alcoolismo, evidenciando a chaga moral de seu vício, sua fugacidade ineficaz e sua ciclicidade degradante, semelhante ao que ocorre na realidade.
Perante o exposto, fica patente que abuso de etílicos no Brasil é uma grave questão, demandando soluções por parte do Governo Federal que, por meio do Ministério da Saúde, deve investir parte dos recursos do erário em campanhas publicitárias, focadas em anúncios informativos, veiculadas em mídias digitais e imprensa de forma geral, de modo que, uma parcela maior da sociedade seja conscientizada dos fatores de risco e das consequências do abuso do álcool em sua higidez. Por conseguinte, logo sejamos capazes de trocar a loucura de Baco e beber sob o equilíbrio apolíneo.