O abuso de álcool na sociedade brasileira

Enviada em 08/05/2020

Na distopia criada pelo escritor inglês Aldous Huxley em “Admirável Mundo Novo”, a população mundial tornou-se dependente de uma substância chamada soma, distribuída pelo governo e usada como forma de fuga da infelicidade. No Brasil, o álcool é uma droga legal amplamente difundida e utilizada, cujo consumo abusivo está ligado tanto a uma cultura de incentivo ao uso irrestrito quanto aos problemas emocionais do brasileiro.

Primeiramente, é preciso considerar como a proeminência do álcool na cultura popular e familiar brasileira levam ao seu uso abusivo. O canto sertanejo Gusttavo Lima, por exemplo, foi alvo de uma representação da Conar, entidade ligada à regulamentação publicitária no Brasil, em 2020, na qual alegou-se que o artista fez uso abusivo de bebidas alcoólicas em um evento virtual sem restrição etária clara. Além da forte presença do álcool em eventos culturais e na mídia, a família também é um incentivador do seu consumo irrestrito. É comum, em reuniões familiares no Brasil, o uso abusivo dessa substância e até mesmo o incentivo, pelos pais e familiares, do uso do álcool por menores de 18 anos. Assim, o uso inconsciente dessa substância torna-se um fato social, conforme o conceito do sociólogo Émile Durkheim, tornando-se uma prática não só comum, mas incentivada pela sociedade.

Ademais, os problemas mentais do homem moderno são um forte fator estimulante do abuso de álcool. De acordo com o neuropsiquiatra Viktor Frankl, a falta de sentido para a vida é o problema emocional mais comum na sociedade contemporânea. Nesse cenário, cada indivíduo deve se esforçar para encontrar esse fator em sua vida, o que, por falta de instrução ou aconselhamento, nem sempre é possível. Dessa forma, o abuso de drogas, entre elas o álcool, torna-se um subterfúgio contra os problemas derivados da vida cotidiana, mas que é incapaz de solucionar essas questões em sua raiz, o que pode levar a outras complicações.

Faz-se necessário, portanto, agir para amenizar as causas do abuso de álcool no Brasil. Para tal, cabe ao Ministério da Educação, aliado ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Comunicação, criar campanhas educativas, que se estendam desde debates e palestras nas escolas sobre os riscos do uso precoce de álcool até campanhas publicitárias na mídia que instruam sobre o uso consciente dessa droga. Além disso, o MEC deve inserir profissionais de aconselhamento e psicólogos no cotidiano escolar e universitário, de modo a incentivar o autoconhecimento e instruir contra o uso de drogas recreativas para fugir de problemas existenciais. Dessa maneira, a felicidade e o bem-estar do brasileiro não precisarão estar condicionados a uma droga, como na distopia criada por Aldous Huxley.