O abuso de álcool na sociedade brasileira

Enviada em 24/12/2020

A busca pelo prazer e pela ausência da dor  são comportamentos milenares, primados na Grécia Antiga pelo filósofo Hepicuro. Hodiernamente, esse estilo de vida tem sido levado às últimas consequências por uma gama de brasileiros que fazem o uso excessivo de bebidas alcoólicas. Indubitavelmente, a naturalização do consumo exacerbado  dessa droga lícita pela mídia e pelo cinema e a falta de diálogo sobre os reais efeitos provocados no corpo são fatores que favorecem sua crescente demanda.

Em primeiro lugar, os meios de comunicação e as artes têm apresentado a ingestão abusiva de etanol de maneira meramente recreativa. A título de exemplo, têm-se os filmes American Pie e Se Beber, Não Case. Neles, situações como perda de memória e coma alcoólico são retratados de forma corriqueira, o que é inadimissível, visto que a classificação indicativa de ambos os filmes é 16 anos e nessa idade os adolescentes ainda não possuem o discernimento necessário para entender o absurdo desses excessos representados. Dessa maneira, os jovens, que ainda ou nunca beberam ou começaram a beber ainda há pouco, normalizam tais excessos.

Em segundo lugar, a esquiva em se esclarecer os reais efeitos do álcool no organismo, torna as autoridades menos críveis. Nessa perspectiva, é impressindível que, além de trazer dados alarmantes acerca do consumo, se explique o porquê das sensações prazerosas provocadas pelos drinks e fermentados. Certamente, o país é capaz de resolver essa empreitada, pois já o fez em relação a outra droga lícita: o cigarro. Hodiernamente, os fumantes sabem que tragam não só substâncias tóxicas, mas também a nicotina, a qual promove sensação de tranquilidade. Por mais que o grande mercado consumidor tabagista não entenda o mecanismo biológico que promove o vício, sabe que no produto consumido há algo que lhe causa sensações gratificantes. A demonização da bebida alcoólica vai na contramão do que já deu certo na redução do consumo dessa outra substância nociva.

Em  suma, é ilegítimo o comportamento  dos meios de comunicação e ineficaz a postura das autoridades. Dessa maneira, urge que o Superministério da Cidadania reavalie a classificação indicativa de filmes que naturalizam o consumo exacerbado de bebidas para que jovens e crianças tenham seu acesso dificultado a essas obras. Outrossim, o poder legislativo deve criar um projeto de lei que promova a vinculação nas peças publicitárias desse gênero alimentício de material que esclareça como o etanol atua no corpo humano, causando prazer e danos irreversiveis, com o fito de promover o consumo consciente. Somente assim, em uma perspectiva hedonista,  os indivíduos serão capazes de dosar quantos drinks possibilitam prazer hoje e ausência de dor no futuro.