O abuso de álcool na sociedade brasileira
Enviada em 06/01/2021
Em seu livro As Obras do Amor, o filósofo Kierkegaard defendeu que a sociedade reconhece facilmente o perigo do fogo ao ver a fumaça, embora negligencie outros riscos, tão danosos quanto, como a difamação. Esse discurso serve de alerta contra o costume, socialmente aceito no Brasil atual, da glamourização do abuso do álcool – tão popular como o comércio de fofocas. Nesse sentido, é notório que a origem desse problema encontra-se na ignorância quanto às consequências potencialmente destrutivas da prática, que se assemelha a um incêndio. Assim, entre os fatores que produzem esse quadro, pode-se destacar: a supervalorização do prazer e a prostituição da educação, que não produz cidadãos responsáveis.
Nesse contexto, é fundamental perceber que o hedonismo, aliado ao desprezo dos malefícios da ingestão exagerada de bebidas fermentadas, gera a presente romantização dessa atitude. Isso ocorre porque o egoísmo que reverencia o prazer de beber imoderadamente ignora a ciência biológica que diz que a dose elevada de etanol no sangue pode provocar danos não somente ao indivíduo, mas também àqueles que o cercam: fato comprovado estatisticamente pela redução dos sinistros de trânsito no país, após a Lei Seca. Por conseguinte, a sabedoria de Aristóteles se mostra relevante, pois sua máxima, que defende que “o homem sábio não busca o prazer, mas a ausência de dor”, ensina que é mais prudente evitar muitas tragédias do que se render ao risco do prazer da ingestão excessiva de álcool.
Ademais, a educação nacional, com foco em aprovações, não se mostra capaz de ajudar a diminuir a valorização da prática do consumo abusivo de bebidas fortes. Isso acontece porque, uma vez que o vestibular se tornou o fim último de muitas instituições, todo o esforço se dirige ao ensino de conteúdos cobrados nos exames, ao invés do aperfeiçoamento ético do estudante. Em decorrência disso, a escola estimula o individualismo, que produz pessoas insensíveis aos malefícios sociais de suas más condutas. Assim, não surpreende a razão pela qual, em solo brasileiro, uma das músicas mais populares de 2020, o brega funk “Amor ou litrão”, defenda que “o amor está no bar e não no coração”.
Portanto, é evidente que a irreflexão quanto aos perigos do abuso do álcool, que deriva da busca desenfreada do prazer e da negligência escolar quanto à responsabilidade social das atitudes humanas, incentiva a glorificação dessa cultura. Diante desse problema, cabe ao Congresso Nacional – instância responsável pelas leis nacionais – aperfeiçoar a Lei Seca, por meio de um amplo debate com cientistas da área, com a finalidade de fiscalizar, punir e educar, não somente condutores de veículos que cometerem crimes sob a influência de álcool, mas toda a população negligente. Assim, pretende-se prevenir a romantização do álcool no país – capaz de produzir catástrofes – tal como o fogo.