O abuso de álcool na sociedade brasileira

Enviada em 28/08/2021

No livro ‘’a paixão segundo GH’’ de Clarice Lispector, a narradora fala sobre a existência de uma terceira perna, que, embora a impeça de se locomover, a sustenta, de modo aparentemente equilibrado. Sendo assim, essa terceira perna e seus efeitos correspondem, analogamente, às consequências do abuso de álcool no seio civil brasileiro, devido à extrema dependência causada. Portanto, tal conjuntura é potencializada pela tentativa de escapismo da vida contemporânea e pela glamorização do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, atrelada ao desconhecimento social acerca dos danos a longo prazo.

Consoante ao marxismo, os indivíduos são cerceados pela sistemática capitalista de produção, responsável por estruturar o âmbito político-econômico e sociocultural. Dessa maneira, tal estruturação, amparada na logística da máxima lucratividade e exploração das forças produtivas, fomenta, na população, a necessidade de válvulas de escape a fim de atenuar a pressão cotidiana, sendo o álcool um desses meios. Além disso, a extrema dependência ao álcool - alcoolismo - é uma das principais causas do desenvolvimento de transtornos mentais e de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, cirrose e câncer, o que compromete ainda mais o sistema público de saúde. No entanto, a esfera coletiva também é prejudicada, pois cerca de 30% - segundo a OMS - das mortes no trânsito estão relacionadas à ingestão de bebidas destiladas, o que desestrutura diversas famílias brasileiras.

Por outro lado, a publicidade e o espaço sociocultural - coercitivo - incutem, precocemente, na mentalidade dos seres sociais, o álcool como meio de socialização, prazer e entretenimento, ao glamorizá-lo. Ademais, tal naturalização ganha ainda mais intensidade, devido ao desconhecimento social acerca dos efeitos colaterais (individuais e coletivos) vinculados ao consumo exacerbado, além de ser majoritária no gênero masculino, em virtude da estrutura patriarcal, representando cerca de 75% das mortes, o que configura um caso de saúde pública, fruto da negligência e da conivência Estatal e familiar.

Logo, a fim de mitigar as consequências do abuso de álcool e libertar os indivíduos da terceira perna limitante, faz-se necessário que o Ministério da Saúde e o MEC, em parceria com as escolas, desenvolvam campanhas midiáticas e socioeducativas - desde o ensino básico - que informem a população sobre os riscos da ingestão precoce e descontrolada de álcool, por meio da discussão, de modo desvelado, do tema e de medidas criticamente conscientizadoras. No entanto, tais medidas só se efetivarão, por meio da ampliação da estrutura de apoio psicossocial aos indivíduos com histórico de abuso alcoólico, pois tal fator é responsável por reduzir a influência do escapismo como uma das causas motivadoras.