O abuso de álcool na sociedade brasileira
Enviada em 29/08/2021
Veiculada no Brasil, a novela “Espelho da vida” retratou a trágica história do personagem Américo, que foi abandonado pela esposa devido à adesão irrestrita que o homem tinha ao álcool. Fora da ficção, tal situação dialoga com a realidade de diversos brasileiros que, assim como o protagonista supracitado, enfrentam dificuldades em decorrência do abuso de bebidas alcoólicas. Nesse sentido, dois fatores contribuem para a ocorrência dessa prática no país: a cultura de valorização da vida boêmia e o acesso dos jovens a tais produtos.
A princípio, observa-se que a cultura de enaltecimento da boemia contribui para o abuso do álcool na sociedade brasileira. Isso ocorre porque os aparatos culturais contemporâneos, como as músicas, continuamente associam o uso de bebidas alcoólicas com uma vida de sucesso, regada a dinheiro e privilégios. Um exemplo disso pode ser notado no trecho da canção “100% muito louco” entoada pelo cantor Wesley Safadão, que diz " estoura o Chandon, hoje a noite é do patrão, porque o sábado não é dia de gente sã". Sob essa ótica, é possível perceber que a letra referida funciona como um incentivo ao alcoolismo ao associar uma espécie de champanhe à alegoria do “patrão”, subentendido como uma figura com bom poder aquisitivo. Fomenta-se, assim, a adesão ao etilismo, a qual é estimulada por mecanismos socioculturais modernos.
Outrossim, o acesso dos jovens às bebidas alcoólicas contribui para a problemática. Quanto a isso, o Código Penal Brasileiro tipifica como crime a disponibilização de tais produtos para indivíduos menores de dezoito anos. A prática, no entanto, demonstra que o texto legal nem sempre é cumprido. Nesse sentido, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar apontou que o primeiro contato dos sujeitos com o álcool acontece aos doze anos, ou seja, seis anos antes do tempo estabelecido pela lei. Dessa forma, percebe-se que, apesar de existir na teoria, o texto deliberado não alcança os efeitos reais almejados.
Em suma, para superar os fatores que fomentam o abuso do álcool no Brasil, deve-se atuar em dois âmbitos. Primeiro, o Ministério da Cultura deve — junto às Organizações Não-Governamentais que atuam contra o alcoolismo — conscientizar a população sobre os riscos do uso excessivo de bebibas alcoólicas, mediante propagandas nas redes sociais e televisão, que busquem dissociar a ideia do etilismo como sucesso, a fim de amenizar a cultura de valorização dessa prática. Segundo, cabe à Polícia Civil dos estados aumentar a aplicabilidade da lei que proíbe o acesso dos jovens às cervejas e vinhos, por exemplo. Isso pode ser realizado mediante o aumento das fiscalizações aos estabelecimentos que vendem tal produto, como supermercados e lojas de conveniência, com o intuito de evitar o contato precoce da juventude com essas mercadorias.