O abuso de poder e de autoridade em questão no Brasil
Enviada em 18/02/2021
No contexto da ditadura militar, o músico brasileiro Chico Buarque compôs “Cálice”, canção que retrata a agonia da impotência diante da violência de autoridades e de sua banalização. No cenário atual, o abuso de poder – movido pela crença internalizada de que posições elevadas dão o direito de agir a bel-prazer – constitui um pertinente problema da sociedade brasileira. Dessa forma, a deturpada mentalidade popular e a sensação de superioridade ligada a esta destacam-se como causas desse desafio de imprescindível solução.
Em primeiro lugar, é indubitável o papel do legado histórico no que tange ao abuso de poder e de autoridade, ainda mais em um país cujo passado foi marcado por inúmeros casos do gênero. De acordo com o pensamento de Maquiavel, filósofo renascentista, “Mesmo as leis bem ordenadas são impotentes diante dos costumes”, o que é reiterado pelas marcas que episódios como o Estado Novo e o coronelismo da Primeira República deixaram na sociedade. Sendo assim, tais extrapolações não serão combatidas somente com intervenções legislativas, uma vez que suas raízes estão profundamente penetradas na mentalidade popular.
Ademais, o agravamento dessa questão encontra terreno fértil no sentimento de estar “acima da lei”, presente entre os agentes desses atos. Na ilustre obra “A Revolução dos Bichos”, do inglês George Orwell, é descrito o mecanismo que transforma utopia em opressão: embora todos os animais tenham um objetivo em comum, os porcos – julgando-se superiores por sua inteligência – passam a dominar os demais, sendo gradativamente tomados pelo desejo por poder. Analogamente à ficção, há indivíduos que, mesmo tendo o anseio por mudança social como força motriz da sua trajetória, tornam-se os opressores ao alcançarem cargos altos.
Logo, é imperativo que medidas sejam tomadas a fim de que o abuso de poder e de autoridade deixe de fazer parte da realidade brasileira. Desse modo, é preciso que as instituições de ensino e os meios de comunicação, entidades formadoras de opinião e com grande potencial de conscientização, somem esforços na resolução desse problema. Para tanto – além do incentivo à leitura de obras distópicas, como a citada anteriormente, que possibilitam a compreensão desse desafio de forma recreativa –, devem dar destaque a notícias e reportagens sobre o tema por meio de sua inclusão em atividades curriculares e na programação, respectivamente. Enfim, espera-se que as tradições danosas deixem de sobrepujar as leis, pois, como disse Aristóteles, “A base da sociedade é a justiça”.