O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 15/04/2020

No desenho animado “O incrível mundo de Gumball”, observa-se que Gumball e seu irmão-peixe, Darwin, atavicamente, aventuram-se na internet, descobrindo suas benesses e possibilidades mediante um computador. No entanto, sabe-se que o “cartoon” reflete, com um teor cômico, uma família norte-americana com acesso aos avanços da Revolução Digital, o que é, muitas vezes, dissonante da realidade brasileira. Dessarte, nos dias de hoje, configura-se uma mazela fortemente atrelada às atitudes do Estado: a falta de acesso à internet, cujas raízes socioeconômicas são acentuadas por uma contradição governamental, que incita pessoas, cada vez mais, tolhidas.

De início, cabe afirmar que o Governo brasileiro, ao tentar, agora, informatizar sua logística em face da população, é controverso. Nesse sentido, é fulcral entender o recente programa nacional “CadÚnico”: uma tentativa de cadastrar todos os cidadãos, de forma digital, em um único banco de dados - no “acesso.gov.br”. Contudo, fazer isso e, concomitantemente, ignorar a parte da sociedade que ainda não tem pleno acesso à internet é compreender apenas aqueles que gozam de tal como, com efeito, cidadãos: cerca de 60% dos brasileiros em 2018. Logo, a própria federação do Brasil é coautora da falta de democratização à internet.

Por conseguinte, enquanto esse panorama perdura, à medida que algumas pessoas são segregadas, mesmo que, a priori, no âmbito digital, de participar de tal logística, os brasileiros, proporcionalmente, tornam-se reprimidos em vieses políticos. Para se depreender disso, é ímpar evocar a “Ética kantiana”. Segundo essa, do filósofo francês Immanuel Kant, os indivíduos são dotados de capacidades as quais os habilitam a exercer a política socialmente. Todavia, se parte deles são segregados por não conter acesso ao veículo atual da política: os meios de comunicação cibernéticos em massa, a “ética kantiana” não é integralmente efetivada, resultando, assim, em indivíduos marginalizados tanto da sociedade, quanto da política.

Portanto, infere-se que, visto a intempestividade da problemática, é imperiosa a dissolução dessa conjuntura nefasta. Para tanto, compete ao Ministério da Cidadania, enquanto instância deliberativa máxima no que concerne à sociedade, o dever de, antes de dar continuidade ao “CadÚnico”, levar, gratuitamente, a internet e seus artigos mediadores às regiões menos abastadas - senão semelhantes à do contexto de Gumball-, por meio da criação de programas mediante verbas governamentais, a fim de tornar esse veículo tecnológico de integração, de fato, integrado dentre as pessoas e de atenuar os impactos de sua ausência. Somente assim, observar-se-iam indivíduos com pleno contato com a internet e que podem desvencilharem-se das âncoras estatais frente à ética de Immanuel Kant.