O acesso à internet em questão no Brasil
Enviada em 17/04/2020
A construção dos feudos, muros que delimitavam uma determinada área no período da Idade Média, segregou milhares de pessoas e impossibilitou o acesso à bens que somente a nobreza podia usufruir. Hodiernamente, existem situações análogas ao feudalismo moderno, como a falta de democratização do acesso à internet, cujo serviço está disponível apenas para pessoas privilegiadas. Nesse contexto, não há dúvidas de socialização da rede mundial de computadores é um desafio no Brasil, o qual ocorre devido não só devido à negligência governamental, mas também aos exorbitantes preços cobrados por provedores desse serviço.
Nesse cenário, a internet tornou-se multiuso, uma vez que quase tudo é feito pela rede, desde assistir à filmes, como fazer movimentações bancárias. Entretanto, de acordo com o geógrafo Milton Santos, no texto “Cidadanias Mutiladas”, a democracia, extremamente necessária para a fundamentação cultural do indivíduo, só é efetiva quando atinge toda a sociedade. Dessa maneira, a disponibilização de serviço de internet em áreas com alto desenvolvimento econômico prova que não há popularização do acesso à internet no Brasil, marginalizando grande parcela da sociedade desprovida de recursos financeiros. Isso demonstra que é ineficaz a política de inclusão digital.
Ademais, os preços abusivos praticados pelos provedores e a limitação de tráfego de dados, privilegiando as redes sociais, impostas pelas operadoras, dividem, ainda mais, a sociedade. Isso pode ser explicado pelo teórico Pierre Bourdieu, o qual afirma que todas as minúcias de um indivíduo constituem simbologias que estão constantemente analisadas pelo corpo social, isto é, o poder de compra, as características pessoais e o acesso a bens e serviços refletem quem é o homem para outrem. Dessa forma, o alto custo praticado pelos provedores de internet violenta simbolicamente aqueles que não conseguem contemplar esse serviço e aumenta a desigualdade.
Portanto, cabe ao Governo - órgão máximo do poder executivo - promover a interiorização de acesso à internet, por meio da construção de infraestrutura em áreas distantes dos polos econômicos e da redução dos custos para o consumidor de baixa renda, incentivando, então, a cultura digital mais democrática. Além disso, é responsabilidade do Ministério da Ciência e Tecnologia, estabelecer um canal de comunicação mais efetiva com o consumidor, por intermédio de aplicativos e das redes sociais, como Facebook, para que denúncias e reclamações sobre preços abusivos possam ser realizadas. Como efeito social, a democratização da internet no Brasil será uma realidade, destruindo, assim, barreiras e “feudos” sociais".