O acesso à internet em questão no Brasil
Enviada em 18/08/2020
No início do século XX, o movimento Futurista representou uma vanguarda de caráter otimista em relação à velocidade das novas máquinas. De fato, as transformações tecnológicas revolucionaram a sociedade e, nas últimas décadas, o advento da internet otimizou as relações e a informatividade dos usuários. Entretanto, apesar da abrangência desse processo, no Brasil o acesso ao ambiente virtual não é democrático e permanece desigual mediante questões socioeconômicas e espaciais. Pode-se dizer, então, que a falta de consideração pelas autoridades intensificam a exclusão social.
Em primeira análise, embora a internet seja essencial na rapidez e abrangência comunicativa, as disparidades de renda dificultam a sua universalização. Isso pois, em um país que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa, apresenta 13,5 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza, percebe-se que nem todos dispõem de condições financeiras para a obtenção de equipamentos digitais e manutenção do serviço. Logo, diante da constante substituição das relações físicas pelas virtuais, a população menos favorecida economicamente não consegue ter acesso à diversidade de ferramentas e conhecimento disponibilizados pela “web”. Destarte, confirma-se o discurso do filósofo Pierre Lévy, no qual considera que toda tecnologia cria seus excluídos, uma vez que, diante dessa evolução, os grupos marginalizados tornam-se ainda mais abandonados.
Ademais, o extenso território nacional requer maior investimento em cobertura de internet que abranja zonas rurais, todavia, segundo jornal O Globo, 70% da população do campo permanece desconectada. O mais preocupante é que, diante do cenário atual de pandemia do novo coronavírus, a proposta de virtualizar o ensino básico como resolução ao interrompimento das aulas presenciais, desconsidera a parcela da população que não tem acesso ao meio “online”. Tal conjuntura, de acordo com o sociólogo Pierre Bourdieu, trata-se de uma violência simbólica, pois, ao reconhecer as necessidades de apenas uma parte da sociedade, as entidades governamentais omitem as limitações dessa minoria do âmbito digital e, muito menos, criam alternativas para diminuir tal disparidade.
Diante do exposto, nota-se que o acesso à internet é desigual no Brasil e, portanto, urge que o poder público se responsabilize pela minimização desse problema. Para isso, cabe ao Ministério da Cidadania
atenuar as dificuldades econômicas da população vulnerável, mediante a criação de auxílio de custeio tecnológico, no intuito de possibilitar o acesso ao ambiente virtual. Ademais, é importante que o Ministério da Economia estimule empresas provedoras a aumentarem a cobertura em zonas rurais, por meio da concessão de incentivos fiscais, a fim de beneficiar a população do campo. Dessa forma, será possível reduzir a violência simbólica cometida pelo governo, assim como considera Pierre Bourdieu.