O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 08/05/2020

Em meio à desestruturação social causado pelo isolamento social decorrente da pandemia de Covid-19, a determinação estatal do ensino à distância como substituto das aulas presenciais, apesar do acesso à internet ainda ser algo restrito no país, pôs em xeque a suposta democracia digital que suprimiria as falhas de uma educação nacional incapaz de se aproximar de seu modelo ideal instituído há milênios. Dessa forma, a exclusão digital, mais do que nunca, revela-se um empecilho a possibilidade de mitigar a desigualdade por meio do acesso à informação.

A fim de compreender as disfunções do ensino virtual como medida para mitigar o contágio, de antemão, vale-se utilizar do modelo ideal de ensino com fins elucidativos. Assim, evoca-se o conceito de Paideia, denominação que faz referência ao sistema educacional da Antiga Grécia, que visava, por meio da união entre ciências, artes liberais e práticas físicas, a formação completa de um cidadão virtuoso com poder de contribuir positivamente com a comunidade. Embora a Educação hodierna ainda mantenha esses valores como ideais para formar seus jovens, sabe-se que, na prática, o ensino público brasileiro permanece precária, uma realidade que começou a ser desafiada pelo advento da internet que, com a disposição imediata de todo tipo de informação, se parece com a Paideia a que os colégios brasileiros aspiravam ser.

Entretanto, para os excluídos digitais, essa possibilidade nunca existiu: apenas 70% dos brasileiros possuem conexão à interweb. Já defasados pelos problemas estrutrais da educação brasileira — como a baixa qualidade do ensino e má formação de professores—os estudantes excluídos digitalmente, agora com suas aulas suspensas, não têm acesso algum a conteúdos ministrados, não conseguem tirar suas dúvidas nem obter material adequado para trabalho. Apesar de haver diversas iniciativas on-line para democratizar o ensino e possibilitar uma disputa um pouco mais justa por vagas universitárias, estas se tornam ineficazes quando os discentes sequer são capazes de acessá-las. E a maior consequência disso é o atrofiamento de mentes brilhantes que poderiam enriquecer a comunidade se tivessem a oportunidade para tal.

Em suma, apesar da educação possuir, desde a Antiguidade, objetivos claros, atesta-se que a maior consequência da exclusão digital é a supressão do acesso democrático à informação. Logo, cabe ao Estado, responsável pelo direcionamento do ensino no país, entregar material impresso para alunos incapazes de acessar plataformas virtuais a fim de mitigar essa desigualdade e aproximar o atual sistema educacional da Paideia idealizada pelos gregos. Só assim, o país será capaz de possibilitar a formação de virtudes àqueles que, um dia, poderão transformá-lo em algo melhor.