O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 15/06/2020

Gilberto Freyre, apesar de tratar a miscigenação do Brasil de forma romântica, foi o primeiro autor a destacar, em seu livro Casa-Grande & Senzala, a dicotomia estrutural que persiste no Brasil até hoje. Na obra, são tratadas as diferenças entre parte branca da sociedade, com todos os seus privilégios, em relação à população negra, usurpada de seus os direitos essenciais. Nesse lógica, com o advento da internet, é possível evidenciar a existência de uma nova divisão, na qual a Senzala é composta pelos cidadãos que não possuem recursos financeiros ou condições físicas  para usufruir desse bem.

Em primeira análise, conforme foi divulgado pelo IBGE, cerca de 25% da população não tem acesso  à internet. Esse valor, em um país com o contingente populacional do Brasil, representa milhões de brasileiros que são, diariamente, impedidos de participar efetivamente da produção cultural e da política, visto que, cada vez mais, filmes, músicas e assuntos públicos são vinculados virtualmente, de maneira rápida e gratuita, para quem pode suprir os custos de uma rede de “Wi-Fi” e equipamentos eletrônicos. Dessa forma, o meio virtual que, segundo o Marco Civil da Internet, deveria ser um mecanismo público e irrestrito, com o foco em ampliar a cidadania, torna-se mais um agravador das desigualdades sociais.

Em segundo plano, a internet ainda não é um ambiente capaz de acolher as pluralidades presente na sociedade. Isso fica evidente ao analisar as dificuldades que os deficiente visuais, por exemplo, enfrentam ao tentar usufruir esse bem. Sob esse viés, a jornalista Eliane Brum, em seu relato “A cega era eu”, compara o uso da internet pelos cegos aos desafios enfrentados pelos portugueses nas Grandes Navegações, pois, assim como o Oceano Atlântico amedrontava os navegadores, a internet é um ambiente desconhecido e desamparador para os deficientes. Desse modo, percebe-se não só uma violação à dignidade desses usuários, mas também ao próprio Marco Civil, que garante a acessibilidade no meio virtual, de acordo com as características físico-motoras e sensoriais dos indivíduos.

Portanto, a fim de reduzir o abismo social relativo ao uso da internet, é mister que o Poder Executivo encare como prioridade a democratização dessa tecnologia. Isso pode ocorrer com a inclusão no Plano Plurianual de uma meta que vise criar, em cada município, centros de acesso à internet, com “Wi-Fi”, computadores e profissionais aptos para auxiliar a população carente a usufruir plenamente desse direito. Além disso, o Ministério da Cidadania deve ampliar a acessibilidade presente na internet, por meio da disponibilização de subsídios para projetos de inclusão, como o DrosVox, um sistema que auxilia na leitura e escrita de textos por pessoas com deficiência visual. Assim, será possível democratizar a internet e libertar mais cidadãos da “Senzala virtual”.