O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 12/06/2020

Milton Santos, ao enxergar os efeitos negativos da globalização, nomeou-a como perversa, tal como ela é. Acerca disso, no Brasil contemporâneo, pode-se enxergar, claramente, a perversidade da globalização, infiltrada nas desigualdades sociais que, provieram dela. Consoante com essa ideia, a questão do acesso à internet tem se tornado um problema sério. Assim, faz-se necessário esclarecer que os impactos negativos da falta do acesso à internet contribuem para a alienação da população, bem como a desigualdade social - que já faz parte da realidade brasileira - ser uma das principais causas para a dificuldade desse acesso.

“Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo” - dizia Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Analogamente, as pessoas prejudicadas por não terem acesso à tecnologia, não têm par neste mundo, estão alienadas e excluídas, apesar de continuarem sendo cidadãs. Isso também pode ser relacionado a Macabéa, personagem do último conto de Clarice Lispector - “A Hora da Estrela”. Ela estava tão perdida e sem perspectiva, que não conseguia enxergar o próprio fracasso, por não entender o que estava acontecendo. Assim também estão os que vivem nas ruas ou, até mesmo, nas periferias, pois não têm acesso às notícias e atualizações da situação do próprio lugar em que vivem.

Acerca disso, desde o período do Regionalismo Nordestino, na segunda geração do Modernismo, é observada uma forte denúncia social - tendo como um dos principais representantes Graciliano Ramos, com sua obra Vidas Secas. Analogamente, seja pelo seu passado escravocrata, pela crise econômica de 1929, pela crise cafeeira, ou por impactos de outros acontecimentos históricos, o Brasil ainda apresenta disparidades significativas entre as classes sociais. Assim, apesar de, ao longo dos últimos quatro anos, o acesso à internet ter aumentado, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2017, são cerca de 27 milhões de residências desconectadas, enquanto outras 42,1 milhões têm acesso.

Tendo em vista os aspectos observados, é clarividente que, devido à desigualdade social, grande parte da população não tem acesso à tecnologia e, essa, é muito prejudicada. Por isso, para mitigar esses efeitos, é imprescindível a democratização da internet. Uma das maneiras de colocar isso em prática é o desenvolvimento da inclusão digital a partir de políticas públicas de governo como, telecentros e redes comunitárias sem fio, tecnologia muito avançada em outros países. Ou seja, o chamado “people play” , uma versão popular do serviço “triple play”, que consiste na oferta de vídeo, dados e voz para as populações de baixa renda. Dessa forma, a internet, começaria a chegar à todos, e não só aos que têm dinheiro.