O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 19/06/2020

No século XVIII, o movimento iluminista defendia, entre outras causas, a universalização do conhecimento. Foi com esse objetivo que Diderot e D’alambert criaram a enciclopédia, a qual, apesar de ter representado um grande avanço nessa direção, não foi suficiente para torná-lo acessível à todos. Séculos depois, os avanços científicos, sobretudo em relação às tecnologias da informação, resultaram no desenvolvimento da internet, ferramenta que permitiu um passo ainda maior no sentido do compartilhamento do saber. Entretanto, no Brasil contemporâneo, se constata que o uso desse instrumento é limitado devido à grande desigualdade socioeconômica existente no território nacional.

Em primeiro lugar, é importante destacar que a navegação na “web”, no país, é limitada por imensas disparidades socioeconômicas. Isso pode ser percebido ao se observar o resultado de estudos realizados pela ONU, os quais indicam que cerca de 40% dos brasileiros não conseguem se conectar ao ciberespaço. Esse resultado certamente está relacionado ao fato de o país ser o sétimo mais desigual do mundo, pois ao não oferecer iguais oportunidades de acesso à educação, saúde, segurança e lazer à sua população, o Estado brasileiro dificulta o desenvolvimento socioeconômico de grande parte dos cidadãos, criando um abismo perverso que, ainda de acordo com a ONU, cerceia direitos humanos fundamentais como navegar na internet.

Ademais, essa inacessibilidade ao ciberespaço, além de ser uma consequência das desigualdades do Brasil, também é uma das causas dessa mazela social. Isso porque, segundo a visão do filósofo Pierre Lévy, as sociedades atuais são hiper conectadas, de maneira que estar permanentemente “offline” significa, muitas das vezes, estar à margem da sociedade e não ter acesso à direitos básicos como dar continuidade aos estudos por meio da inscrição no ENEM. Assim, nota-se a existência de um ciclo vicioso no qual as desigualdades socioeconômicas dificultam o acesso à internet e essa inacessibilidade causa a manutenção das disparidades no país.

Portanto, levando-se em consideração a relação entre a desigualdade social e a dificuldade de acesso à internet no Brasil, o Poder Executivo e o Poder Legislativo devem se articular para criar soluções que ampliem a acessibilidade da população aos servições de educação, saúde, segurança e lazer, reduzindo a médio e longo prazo o abismo socioeconômico existente no território nacional. Outrossim, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações deve fomentar a ampliação de redes de internet gratuitas em espaços públicos como escolas, universidades, bibliotecas e praças. Isso deve ser feito de maneira que toda a população, independente do poder aquisitivo, possa acessar a rede. Dessa forma, será possível concretizar o ideal iluminista de universalização do acesso ao conhecimento.