O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 09/07/2020

No primeiro semestre de 2018, a Rede Globo lançou uma campanha estimulando que as pessoas enviassem vídeos à emissora, respondendo à seguinte pergunta: “que Brasil você quer para o futuro??. Entre outras reivindicações, uma espectadora do Pará respondeu que gostaria de um país com uma maior disseminação do acesso à internet. Essa afirmação evidencia um novo problema social enfrentado pelos brasileiros na modernidade: a exclusão digital, que decorre tanto da indisponibilidade de meios físicos, conforme relatado pela paraense, quanto da escassez de treinamento a usuários hipossuficientes. Em que pese os agentes públicos já tenham demonstrado notório interesse pela matéria, envidando esforços para solucionar a questão, o cenário ainda é negativo. Trata-se de um tema complexo, que demanda um equacionamento e leva à reflexão. Com efeito, 39% dos brasileiros, segundo dados da Agência Brasil, ainda não dispõem de computadores e de acesso à internet. Esse problema é reportado na obra “A Era da Informação”, de Manuel Castells, que reporta uma situação correlata ainda mais grave: indivíduos que têm acesso à tecnologia, mas que não são capazes de utilizá-la em seu benefício. Infelizmente, o produto desse fenômeno é a exclusão digital, que empurra esses cidadãos para as margens da sociedade tecnológica moderna. Essas pessoas são privadas do acesso à informação e de todas as possibilidades que o ambiente virtual disponibiliza, como debates públicos “online?, plataformas de educação e até mesmo serviços governamentais, como o agendamento digital em órgãos públicos e a inscrição para o Exame Nacional do Ensino Médio. É inequívoco, pois, que o enfrentamento desse quadro é mais do que urgente. Felizmente, a preocupação da sociedade em relação ao tema cresceu nos últimos anos e avanços já são visíveis no cenário nacional. Em 2005, por exemplo, durante o mandato do presidente Lula, o Governo Federal implantou o projeto “Computador Para Todos?, com oferta de computadores e acesso à internet a preços subsidiados. Ainda que bastante elogiável, essa providência não é uma solução definitiva, de vez que a aquisição de aparelhos e de banda larga é apenas o primeiro passo para que as pessoas sejam inseridas na realidade tecnológica. Uma verdadeira inclusão digital demanda que os indivíduos tenham a capacidade de utilizar as ferramentas tecnológicas de maneira racional, de forma a facilitar as atividades cotidianas e melhorar suas condições de vida. De fato, a conquista da cidadania por meio do uso da tecnologia é um desafio a ser enfrentado e, não por outro motivo, foi um dos objetivos estabelecidos pela ONU, em setembro de 2015, na “Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável?. Dessa forma, é imprescindível que se trabalhe para inserir um maior número de brasileiros na realidade “online?. Nesse sentido, deve o Ministério da Ciência e da Tecnologia, instituição vinculada ao Poder Executivo e responsável por assegurar os direitos constitucionais de acesso à tecnologia a todos os cidadãos, por meio da destinação de maior parcela de seu orçamento público, construir centros que disponibilizem computadores e acesso à internet, contando com a presença de profissionais especializados para ensinar à população a manusear as ferramentas virtuais, otimizando seu uso para trazer benefícios aos usuários. Essas unidades poderiam ser instaladas, principalmente, nas localidades onde o acesso às redes é mais restrito, tendo como resultado o aumento do número de pessoas aptas a fazer uso das tecnologias a seu favor e uma maior inclusão digital, como desejava a paraense em seu vídeo. Esse, sim, é o país que se quer para o futuro.