O acesso à internet em questão no Brasil

Enviada em 12/12/2021

No livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, quando a cegueira branca se torna uma epidemia, os problemas da nossa sociedade que nos negamos a enxergar se intensificam, chegando a um ponto em que o civilizado se torna primitivo. É possível traduzir essa narrativa para o contexto atual brasileiro, onde nós ignoramos o quanto a falta de acesso à internet prejudica a educação, sobretudo na pandemia.

Durante a pandemia do coronavírus, o governo implantou o EaD (ensino a distância), visando dar continuidade ao ano letivo. Tal projeto é quase uma declaração, para aqueles que souberem interpretar, de que as crianças e suas respectivas famílias, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade, não passam de estatística para as autoridades. Cerca de 42% das casas brasileiras não possuem computador, e, muitas vezes, os residentes precisam dividir um único aparelho celular para a realização das atividades. Dessa maneira, uma educação de qualidade de forma igualitária é inviável.

Em um mundo onde a tecnologia domina a maioria dos espaços, é de se esperar que aqueles que não possuem acesso a ela, fiquem para trás. Segundo o filósofo Michel Foucault, as relações de poder presentes na escola têm o objetivo de hierarquizar a sociedade, para que o poder vigente seja perpetuado. Assim, ignorar a defasagem educacional daqueles que não possuem acesso à rede, também é uma forma de certificar o poder vigente, garantindo que os mais vulneráveis fiquem onde estão.

Ainda que seja rápido e até mesmo fácil, democratizar o acesso à tecnologia não parece estar na lista de prioridades que qualquer empresa ou governo. Porém, tal prática só traria benefícios para a humanidade como um todo, visto que teríamos um avanço na qualidade da educação, os jovens seriam mais autônomos na hora de resolverem seus problemas, a comunicação em casos de emergência seria mais rápida e eficaz, e a possibilidade de novos empregos e profissões teria um impacto positivo na economia mundial.

Diante disso, é necessário que o governo desenvolva políticas públicas, por meio de parcerias com empresas de tecnologia ou estratégias de mercado que beneficiem entidades que distribuem rede, a fim de democratizar o acesso à internet, uma vez que é importante nivelar o nível e promover uma educação, e até mesmo lazer, de qualidade para todos.