O aumento da depressão entre os jovens no Brasil

Enviada em 13/07/2018

A Segunda Geração do Romantismo brasileiro, ao utilizar um eu-lírico pessimista e melancólico, ficou conhecida como “mal do século”. Essa angustiante trajetória, extrapola os livros e invade a realidade entre jovens na contemporaneidade, na qual o desconhecimento é um dos motivos para estigmatizar a depressão. Tal cenário patológico deve-se, sobretudo, à liquidez das relações humanas e à “ditadura da felicidade”. Logo, a depressão tornou-se um fenômeno normalizado e silenciado, seja pelo tabu vigente, seja pela pressão social em “ser feliz”, e são necessárias medidas capazes de reverter essa problemática no Brasil.

A priori, ao avaliar essa doença do século XXI, nota-se que a sociedade atual, em detrimento da nova dinâmica urbana, é alheia, por vezes, aos problemas que podem afetar o outro. Portanto, percebe-se que o “liquidismo social”, teorizado pelo sociólogo Zygmunt Bauman, faz com que as relações se tornem, cada vez mais voláteis e inconstantes, de modo a distanciar as pessoas e, assim, dificultar a identificação da patologia. Então, retarda a resolução do empecilho, já que o diálogo – não romantizado – é uma das melhores maneiras de prevenção. Isso pode ser comprovado mediante a elevada venda de antidepressivos que cresceu próximo de cinquenta por cento em quatro anos. Ademais, infelizmente, a falta de entendimento dos mecanismos biológicos e sociais que desencadeiam a depressão e seus sintomas, fazem com que o estereotipo do depressivo seja como uma pessoa fraca, dramática e triste permaneça, o que gera a ideia de que ela escolheu ficar assim e, dessa maneira, só depende de ela sair dessa situação. Nesse contexto, o Brasil é país com maior prevalência de depressão da América Latina, com 11,5 milhões de pessoas.

A posteriori, lamentavelmente, vivencia-se a incessante busca pela felicidade, ao encontro do pensamento crítico da psicanalista brasileira Maria Rita Kehl “em que a sociedade de hoje não criou espaço para sentir tristeza”, tendo como consequência direta a produção de pseudovalores e pseudonecessidades, configurando em uma “sociedade do espetáculo”, visto que “ser feliz” se transformou em um arquétipo planejado. Por um lado, a dialética do ter em detrimento do ser, o que resulta em frustação e ansiedade, devido à ausência de conquistas imediatas; por outro lado, a sobrecarga da sociedade que molda determinados comportamentos do indivíduo - como egresso rápido na faculdade, ter um relacionamento, ser bem-sucedido ou mesmo sorrir em excesso, visto que o parecer na cena social se torna questão de existência. Assim, quem contraria o padrão vigente é excluído socialmente, escravizado em um modelo de satisfação que não aceita o diferente, uma vez que a depressão, simbolicamente, representa o fracasso da pessoa na participação da cultura do narcisismo e do “espetáculo”. Nesse sentido, preocupantemente, o transtorno depressivo pode levar ao suicídio, pois de acordo com a Organização Mundial da Saúde a cada cem pessoas com a moléstia, quinze tentam se matar, a exemplo do meio acadêmico, por vezes, entre os estudantes do curso de medicina. Desse modo, intuem-se os efeitos críticos para o sujeito, uma vez que frente à tanta expectativa e decepção, vive em estado de medo e estresse, por conseguinte afeta a saúde física e o processo de socialização, bem como vê o suicídio como uma válvula de escape. Em síntese, a depressão é uma realidade sequeladora para a efetivação do bem-estar social. Dessa maneira, para amenizar o problema é preciso que a Associação Brasileira de Psicologia elabore projetos educativos e informativos, como debates e palestras, por meio de sociólogos, psicólogos e psiquiatras que discutam acerca da “ ditadura da felicidade”, da fluidez das relações e ampliem a divulgação de mecanismos de prevenção ao suicídio, a exemplo o CVV(Centro de Valorização da Vida), pois conforme o filosofo Sêneca “toda a felicidade é incerta e instável”, a fim de desconstruir essa lógica padronizada , bem como mitigar o tabu vigente e orientar a população em como lidar com a psicopatologia.Com isso, as obras ultrarromânticas passam a não ser mais a realidade do Brasil contemporâneo.