O aumento da depressão entre os jovens no Brasil
Enviada em 04/08/2019
Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teria filhos, a fim de não transmitir os legados da miséria humana. Analogamente, o preconceito intrínseco da sociedade acerca da depressão enquadra-se no conjunto de “misérias da humanidade”, uma vez que se constituem como desafios a serem superados para mitigar a problemática do aumento da doença entre os jovens brasileiros. Assim, é necessário discutir os aspectos sociais e políticos da questão, em prol do bem-estar social.
Primeiramente, vale ressaltar o efeito que a não crença na doença possui na expansão dessa mazela. Consoante à Teoria do Habitus elaborada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, a sociedade possui padrões que são impostos, naturalizados e, posteriormente, reproduzidos pelos indivíduos. Nessa perspectiva, a visão deturpada que a sociedade possui sobre a depressão -considerar como uma pseudo-doença e não aceitar a veracidade dos sintomas- se enraizou no corpo social, provavelmente na geração ultrarromântica. Assim, o desconhecimento dessa realidade permite que a doença seja negligenciada, o qual não estimula a procura de tratamento. Dessa forma, medidas são necessárias para alterar a reprodução, prevista por Bourdieu, dessa visão que afetam negativamente inúmeros indivíduos.
Ademais, é pertinente explicar sobre como o indivíduo que possui a doença se sente em relação à sociedade. Nesse contexto, o escritor alemão Franz Kafka, em sua obra “A metamorfose”, faz alusão à população contemporânea na relação homem-doente: o protagonista Gregor Samsa se metamorfoseia em um “inseto monstruoso”, que é excluído do sistema de relações humanas, do qual furtaram até mesmo a própria dignidade. Analogamente, a metáfora de Kafka se aplica à depressão na contemporaneidade: quando possui a doença, o cidadão é esquecido pela sociedade, como se não tivesse humanidade, pois, dada a gravidade da situação, aliada à visão preconceituosa da sociedade, o indivíduo se sente como Gregor: isolado, sozinho, um fardo.
É evidente, portanto, que o aumento do número de casos de depressão entre jovens exige uma intervenção estatal imediata. Logo, o Ministério da Educação, em parceria com o da Saúde, incorpore à grade curricular de ensino, Fundamental e Médio, aulas ministradas por psiquiatras e psicólogos que discutam não só sobre mecanismos sociais e biológicos, mas também sobre sintomas dessa doença, com auxílio de matérias didáticos impressos. Para que, assim, a próxima geração cresça sem o preconceito intrínseco da sociedade.