O aumento de DSTs entre jovens brasileiros

Enviada em 24/04/2020

A série da Netflix “Sex Education” é reconhecida por, sobretudo, mostrar os anseios adolescentes frente a tópicos com teor sexual de forma lúdica e cômica. Na trama, aborda-se, durante a segunda temporada, um suposto surto de clamídia - uma IST - dentre os personagens, o que, na obra, foi suficiente para instaurar o caos. Fora da ficção, no Brasil, conquanto seja um tema delicado, é ubíquo aos cidadãos, mormente aos jovens, um preconceito que circunscreve o uso de preservativos, o que, infelizmente, incita o aumento das ISTs nesse público. Dessarte, é fulcral analisar a principal raíz desse estigma para, assim, compreender os efeitos de sua consolidação.

De início, afirma-se que a razão ímpar para a problemática dialoga com o superestímulo da indústria pornográfica. Para depreender isso, vale evocar o etólogo Nikolaas Tinbergen e a “Ilusão do Superestímulo”. Segundo essa teoria, os insetos, no geral, são seduzidos por lâmpadas em virtude de que, biologicamente, eles se localizam pela luz lunar, e a lâmpada, fruto dos avanços tecnológicos, funciona como um estímulo artificial que os atrai. De maneira análoga, a grande disponibilidade de conteúdos pornográficos na internet faz dos jovens que os consomem insetos tinbergianos, os quais, em face do superestímulo da pornografia, entendem o que veem como a realidade. Nesse sentido, como, para fins audiovisuais, descarta-se o uso dos preservativos na realização de gravações para tal indústria, os telespectadores tendem a adaptar tal prática às suas relações sexuais, solidificando, com efeito, o estigma perante o uso de preservativos.

Por conseguinte, enquanto esse preconceito perdura, observa-se uma grave conjuntura: o aumento das ISTs entre adolescentes e adultos. Sob esse prisma, é notório que, sem o hábito do uso de preservativos em meio aos jovens, a probabilidade de tais infecções se manifestarem aumenta exacerbadamente, haja vista que o principal método para evita-las é segregado mediante um preconceito. Evidência disso é que, conforme uma pesquisa de 2015 do Departamento de ISTs do Ministério da Saúde, em tal ano, no mínimo 200 mil brasileiros entre 15 a 29 anos eram portadores de HIV, o que mostra não só a gravidade do problema, mas também sua proporção a nível nacional.

Portanto, infere-se que, sob a óptica da intempestividade da problemática, urgem mudanças que eliminem o estigma acerca do uso de preservativos no país e suas contribuições. Para tanto, compete às famílias, enquanto unidades formadoras de indivíduos, o dever de instruir, desde cedo, sobre o uso da internet e, como primeira instância, sobre a necessidade da utilização de preservativos em relações sexuais, por meio do diálogo e da protocooperação familiar, a fim de tornar isso um traço inerente ao código de conduta individual, perpassando qualquer estímulo artificial.