O aumento de incêndios nas matas brasileiras

Enviada em 10/07/2020

Uma postura destituída de empatia perante o sofrimento alheio. Essa é a imagem presente no quadro “O grito”, do pintor Edvard Munch, na elaboração dessa arte expressionista, vê-se, ao fundo da tela, personagens que se mostram indiferentes à angústia evidenciada pela figura humana do plano central. Entretanto, essa cena não se limita ao âmbito artístico, já que as vítimas do aumento de incêndio nas matas brasileiras vivem algo semelhante, tendo em vista que elas têm sido esquecidas por setores governamentais e sociais. Sob essa ótica, cabe analisar os aspectos políticos e culturais que envolvem essa questão no país.

Primeiramente, pontua-se que o Poder Público mostra-se negligente ao permitir incêndios nas matas. Isso porque há, por parte dos órgãos executivos, uma ineficiência quanto ao processo de criação de leis mais rígidas, uma vez que a legislação em vigor, por se considerada branda, não tem inibido o avanço das queimadas, o que prejudica o equilíbrio dos ecossistemas nacionais. Sendo assim, nota-se que o governo não tem garantido o bem-estar de todo o coletivo, evidenciando, dessa forma, a ausência de consolidação dos princípios fundamentais, alicerçados nos ideais iluministas do século XVIII em prol da democracia.

Também, observa-se que o silenciamento social frente ao aumento das queimadas nas matas apresenta-se como fator gravador desse quadro negativo. Contudo, parte da população tem demonstrado certa inércia diante desse cenário, por acreditar que são majoritários os segmentos políticos contrários ao investimento financeiro estatal na investigação policial de inteligência para fiscalizar os focos de incêndio, gerando, então, uma maior proteção aos indígenas viventes no local. Recorrendo aos estudos da cientista política Elisabeth Noelle-Neumann para explicar esse fenômeno, contata-se que, para evitarem conflitos com grupos dominantes, alguns indivíduos tendem a fortalecer uma “espiral do silêncio”, permitindo, assim, a manutenção de alguns entraves.

Ressalta-se, portanto, que o aumento dos incêndios nas mata deve ser combatido. Logo, é necessário exigir do Estado, via debates em audiências públicas, a criação de um ordenamento jurídico mais rigoroso, priorizando a aplicação de multas mais elevadas aos infratores, com o objetivo de reduzir as queimadas ilegais. Ademais, é essencial estimular a população, por meio de campanhas midiáticas produzidas por organizações não governamentais, sobre a importância de haver um engajamento coletivo para a ruptura de discursos dominantes, potencializando, assim, o financiamento estatal em investigação para auxiliar a proteção das comunidades indígenas pondo fim aos incêndios. Desse modo, o “grito” - diferentemente do da obra de Munch - poderia romper o “silêncio” dos resignados.