O aumento no uso de opioides no Brasil
Enviada em 23/06/2023
Brás Cubas — o defunto-autor de Machado de Assis — diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado de sua miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente ao aumento do uso de opioides é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Esse cenário nefasto ocorre não só pela negligência governamental, como também pela influência de aspectos socioculturais.
Primeiramente, nesse contexto, pode-se reconhecer a falta de políticas públicas como uma das causas do problema. Sobre isso, Abraham Lincoln — célebre figura política norte-americana — afirma que “a política é a serva do povo, e não o contrário”. Entretanto, essa filosofia não é aplicada no Brasil, visto que o Estado é incapaz de estabelecer medidas significativas que diminuam o acesso aos opioides presentes em medicamentos, tornando-os parte do cotidiano de muitos brasileiros. Dessa forma, nota-se que a negligência estatal expõe o corpo social ao risco de dependência química e vai contra o direito à saúde, garantido na Constituição.
Além disso, vale ressaltar que a influência dos aspectos socioculturais corrobora intensivamente o entrave. Segundo o sociólogo francês Émile Durkhein, o homem, mais que formador da sociedade, é um produto dela. Sob essa análise, pode-se concluir que a sociedade brasileira recorre a mecanismos que lhe deem uma sensação de bem-estar e lhe permitam uma fuga da realidade na qual se encontram. Esse fato é analisado por pesquisas médicas, que apontam o aumento do uso de substâncias opioides durante a pandemia de COVID-19, mostrando o impacto da realidade social no abuso de fármacos e analgésicos.
Portanto, medidas são necessárias para contornar o cenário vigente. Para isso, cabe ao Estado — em seu papel de provedor do bem-estar social — encontrar meios para dificultar o acesso aos opioides por meio da fiscalização de vendas e prescrições de medicamentos a fim de que estejam disponíveis apenas em casos necessários, reduzindo o risco de dependência. Assim, o Brasil estará mais próximo de se tornar uma nação que Brás Cubas teria orgulho de deixar como legado aos seus filhos.