O carnaval como símbolo da nacionalidade brasileira no século XXI

Enviada em 09/03/2020

“A única certeza do brasileiro é o carnaval no próximo ano”. Essa frase, dita pelo escritor Graciliano Ramos na década de 1930, ressalta o símbolo que essa festa é para a nacionalidade no Brasil. De fato, trata-se de comemoração histórica com importância política. Todavia, percebe-se com maior intensidade, nessa época, a manifestação de preconceitos tão tradicionais na cultura quanto o carnaval. Diante disso, o símbolo expressa um paradoxo que fere a noção de nacionalidade: uma festa na qual os indivíduos manifestam sua liberdade de expressão, ao passo que a dos grupos minoritários é cerceada.

Em primeira instância, é necessário observar que o carnaval é uma forma de resistência social. Hodiernamente, alguns festeiros aproveitam a oportunidade para criticar de modo satírico, por meio das fantasias ou músicas, situações contemporâneas comumente relacionadas à política. Essa característica, no entanto, não é recente, posto que, em 1942, por exemplo, Afonso Teixeira escreveu “Quem e o tal?”, canção que debocha de Hitler, na época em que o presidente Vargas tinha certo alinhamento fascista. Dessa forma, percebe-se a importância social do carnaval, visto que permite aos brasileiros expressarem suas opiniões e exercerem sua cidadania de forma conjunta. Trata-se, portanto, de uma festa que alia protesto à diversão.

Em segundo lugar, deve-se considerar que o carnaval, apesar de glorificar o direito à expressão, não é democrático. Embora o preconceito não seja um problema exclusivo do carnaval, esse é uma comemoração que exalta a liberdade de expressão e a exposição corpórea numa sociedade que historicamente é discriminadora e patriarcal, o que transforma a parcela já marginalizada da população – como mulheres, negros, LGBTs e indígenas – no principal alvo de violência, seja física ou simbólica. Consequentemente, a folia carnavalesca segura torna-se um benefício para poucos. Como exemplo, em 2017, segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres, denúncias de agressão contra esse gênero subiram 90%, em relação ao ano anterior, durante os dias de festa.

Destarte, é necessário que a ideia de Graciliano Ramos não se perca e o carnaval continue importante para o Brasil. Para isso, o Ministério da Educação deve se aliar aos governos municipais e às escolas em um projeto - destinado à toda população - que contenha palestras e peças teatrais sobre a participação do carnaval na construção da sociedade brasileira; a importância para o exercício da cidadania; os problemas que tornam essa festividade pouco democrática e sobre como melhorar essa festa a fim de que ela seja de fato um símbolo nacional. Assim, o carnaval poderá ser, de fato, representante da identidade brasileira.