O carnaval como símbolo da nacionalidade brasileira no século XXI
Enviada em 10/07/2021
Em seu poema “Canção do exílio”, Manuel Bandeira, ímpar poeta brasileiro, narra, de maneira brilhante, os tesouros que se pode encontrar no Brasil. Entretanto, faltou na obra do escritor citar o carnaval, evidente símbolo cultural da nação brasileira. Nesse sentido, para não se cometer o mesmo deslize, é importante que o debate público empenhe forças na valorização desse evento, especialmente, com o combate aos obstáculos que a dificultam, como a indiligência estatal e a imobilidade do pensamento coletivo discriminatório.
Diante desse cenário, cabe lembrar que o governo brasileiro adota postura insuficiente no estímulo ao carnaval. Sobre isso, é pertinente citar Tomás Hobbes, pensador contratualista, o qual defendia, em seu livro “O Leviatã”, que o Estado deve proporcionar todos os meios necessários para o progresso social, incluindo o aspecto cultural. Entretanto, a máxima do filósofo se encontra em dissonância com o cenário vigente, uma vez que o poder público não direciona um olhar a ações que poderiam auxiliar na desejada valorização, tal qual o ensino escolar sobre a importância identitária dessa festa para o povo tupiniquim. Logo, enquanto a máquina pública for negligente, poder-se-á observar a falência da manifestação artística carnavalesca.
É assinalável, além disso, o quão fundamental a natureza inercial do pensamento coletivo é para a prevalência do preconceito contra o carnaval Sobre esse prisma, o filósofo pós-estruturalista Jacques Derrida, com o uso de análises sociais, concluiu que todo pensamento errôneo já estabelecido em uma comunidade, como no caso da desvalorização da festa abordada enquanto elemento cultural válido, pode sofrer transgressão. Tal fenômeno ganha vida no momento em que o ímpeto na reconfiguração das valorações coletivas está presente nos agentes sociais. Portanto, dada a viabilidade de atenuação da problemática, é imprescindível que a sociedade brasileira seja ativa na busca pelo reconhecimento do carnaval.
Dessa maneira, a partir do que foi exposto, medidas devem ser tomadas para diluir o inaceitável paradigma cultural discutido. Para tanto, o governo federal, por intermédio de aportes financeiros direcionados ao Ministério da Educação — órgão responsável pela formação cívico-cultural dos cidadãos —, deve promover o contato dos estudantes de todas as séries escolares com os ritos do carnaval, isto é, as danças, fantasias e alegorias. Com isso, tendo em conta que projetos socioculturais ministrados nas escolas tem grande poder transformador, espera-se que a comunidade escolar e sociedade num geral, consequentemente, tomem consciência acerca do prestígio que o carnaval merece ter. Se assim for feito, a lacuna deixada por Bandeira em seu poema será devidamente preenchida.