O casamento infantil no século XXI
Enviada em 11/03/2020
As crianças, desde o nascimento, sofrem intensa pressão social que varia de acordo com o gênero que as acompanha, marcando, assim, uma distinção a partir do seu primeiro respiro. “Não se nasce mulher, torna-se”, a frase da filósofa Simone de Beauvoir reverbera na atualidade. O casamento é, desse modo, um problema que se apresenta eminentemente feminino, pois tem servido para controlar seus corpos, seja por meio da maternidade, ao cuidado exclusivo dos filhos, ou através da obrigação no trabalho doméstico. Portanto, casar-se menina, nos marcos de uma sociedade cuja cultura machista é seu norte, implica numa dupla condenação: sujeitar-se aos homens e sobreviver à sua dominação.
Em primeiro lugar, segundo a ativista política Angela Davis, apesar do trabalho doméstico gerar riqueza à comunidade, é uma atividade não remunerada, que submete as mulheres à dependência material não apenas de seus futuros maridos, mas também, já na infância, dos provedores masculinos de sua família originária. Tal conjuntura é funcional àqueles que mandam na casa, sobretudo, quando as vítimas são pessoas vulneráveis, uma vez que, assim, podem mais facilmente controlá-las. Ademais, além da dependência financeira, cria-se a psicológica, já que a criança – recém-casada – não está madura nem viveu experiências suficientes que a torne independente no mundo. As referências éticas e morais, assim como as de poder, terão centralidade na figura do marido.
Consequentemente, diversos são os problemas que irão decorrer do matrimônio infantil, sendo o mais marcante deles o abandono escolar, que acarretará no atraso do desenvolvimento profissional e intelectual da afetada. A menina-mulher, com a sobrecarga das tarefas domésticas e com os cuidados do esposo, não encontrará tempo para dividi-lo com a escola. Adicionalmente, essa situação é agravada quando na presença de uma maternidade precoce, cujo corpo não está preparado para gerar uma nova vida.
Urge, portanto, que o Governo Federal, por meio do Ministério da Educação, elabore um programa de bolsas estudantis à todas as jovens recém-casadas que se encontrem em situação de pobreza, de modo a diminuir sua dependência material de outrem. Ainda, deverá ampliar a rede de creches e dotá-las de assistência psicológica especializada em maternidade precoce, aberta para todas que são ou desejem ser mães, auxiliando no planejamento familiar, visto que muitas delas, devido a sobrecarga de atividades, abandonam seus projetos pessoais e chegam a desenvolver patologias como a depressão.
Que a infância seja vivida e que nossas crianças possam, todas, sonhar.