O casamento infantil no século XXI

Enviada em 22/09/2020

O livro A Cor Púrpura, da escritora Alice Walker, retrata a história da Célie - uma garota de 13 anos - que se casa precocemente e sofre abusos sexuais e verbais do seu marido. Contudo, o que aparenta ser apenas ficção é também realidade hoje, e devido ao amadurecimento mental das crianças na infância o casamento nessa faixa etária é potencialmente nocivo para acarretar graves danos psicoemocionais. Com efeito, o problema evidencia-se, sobretudo, seja pela diminuta comunicação sobre a problemática, seja pela interpretação machista da união matrimonial em relação às mulheres.

Em primeiro lugar, a falta da discurssão na sociedade sobre o casamento infantil é nociva. Acerca disso, o médico Sigmund Freud - pai da psicoanálise - descreve, em seu livro Totem e Tabu, os totens como elementos exemplares e os tabus como comportamentos irregulares, sendo, consequentemente, pouco discutidos. Posto isso, o tabu dessa união conjugal reflete-se na indiferença da comunidade social com a mazela, o que, nocivamente, fomenta a permanência de outras biografias como a da jovem Célie. Comprova-se, assim, por uma pesquisa divulgada pelo jornal Correio Braziliense, em 2019, que afirma que cerca de 36% das adolescentes brasileiras, por exemplo, já estão casadas antes de completarem a maioridade.

Por conseguinte, a concepção errônea da sociedade que atribui o casamento como o destino para as mulheres é um desafio. Nessa lógica, o sociólogo Gilberto Freyre, em seu livro Casa Grande e Senzala, discute os nichos sociais existentes no Brasil colônia , em que a mulher - tanto negra quanto branca - encontrava no casamento um refúgio para subsistência em uma sociedade marcada pelo machismo. Sob essa perspectiva, ocorre, hodiernamente, a manutenção desse pensamento que repercute no posicionamento dessas crianças que, majoritariamente, casam como forma de escaparem de uma realidade violenta. Todavia, o interesse sexual do marido na esposa e o trabalho doméstico demasiado influenciam negativamente o desenvolvimento mental e social das jovens, podendo ocasionar uma conduta introspectiva na fase adulta, similar ao caso da personagem de Walker. Logo, é inaceitável tal realidade.

Portanto, o imaginado lapso entre a obra literária e o quadro contemporâneo é falso. Dessa forma, é necessário uma ressignificação do casamento na sociedade. Urge que o Ministério da Educação (MEC) promova nos colégios projetos lecionadores que possibilitem a discussão do problema pelos discentes. Nessa ótica, o programa será executado por meio do contrato de profissionais que realizem atividades lúdicas para a compreensão do problema. Espera-se, nesse aspecto, a invalidação da tese de Gilberto Freyre, bem como a “Totemtização” do diálogo sobre o casamento infantil.