O casamento infantil no século XXI

Enviada em 13/05/2021

“Foi amor à primeira vista, à última vista, a todas as vistas”. Essa sentença retrata o sentimento de Humbert Humbert, um homem adulto, pela adolescente Dolores com a qual divide um relacionamento amoroso na obra “Lolita” de Vladimir Nabokov. No relato, a jovem é apontada como intencionalmente sedutora, que cativa e provoca as emoções do narrador. Essa visão da infância como hiperssexualizada, não raro, é tida como uma das causas para a persistência dos casamentos infantis, tendo como uma das consequências a gravidez precoce.

Em primeiro plano, destaca-se o papel da erotização de crianças na reprodução do casamento infantil. Isso porque, assim como em Lolita, a visão patriarcal sobre corpos, sobretudo do gênero feminino, permeia uma falácia de amadurecimento precoce, aliada a um poder intencionalmente sedutor inerente a esse sexo. Assim, a sociedade internaliza essas ideias, normalizando os relacionamentos de menores com indivíduos adultos, visto que não enxergam a pureza infantil, mas a sexualidade de uma mulher escondida nos traços pueris. Infelizmente, esse olhar machista corrompe inúmeras jovens, impedindo-as de vivenciar sua infância, acabando por serem inseridas no matrimônio antecipado e, portanto, na vida adulta que não condiz com sua idade.

Por consequência disso, o casamento infantil fomenta a existência da gestação precoce. Devido à inserção no universo adulto de maneira imatura, essas crianças acabam não tendo a oportunidade e o conhecimento sobre a importância do planejamento familiar. Com isso, muitas acabam engravidando rapidamente, a fim de agradar os desejos do marido ou por desconhecerem medidas contraceptivas. Isso ocorre pela lacuna educacional que essas meninas enfrentam, dado que, devido à união matrimonial, muitas abandonam o ensino para cuidar dos afazeres domésticos. Assim, é comum que não tenham acesso a informação sobre os riscos da gravidez antecipada e como prevenir. Logo, conclui-se que uma das consequências desse matrimônio é a gravidez antecipada.

Posto isso, é necessário que o Estado combata a sexualização da infância, por meio da instrução sociocultural nas mídias digitais. Para isso, deve criar propagandas que denunciem a letargia que essa prática representa para a infância e contar com relatos de jovens que sofreram com essa união conflitante com suas idades. Com isso, será possível refutar essa tradição patriarcal que vitimiza inúmeras crianças. Ademais, é preciso que o Estado forneça assistência a jovens que lidem com o casamento infantil, criando programas de permanência escolar, profissionalização e cuidado com as relações sexuais. Dessa forma, essas jovens poderão continuar seus estudos e, possivelmente, adotar um planejamento familiar, evitando a gestação antecipada.