O combate ao comércio ilegal de animais silvestres
Enviada em 28/09/2020
A cultura do exotismo e o fim da fauna nacional
No filme “Rio”, do diretor Carlos Saldanha, é retratada a vida de Blu, uma arara azul que, contrabandeada quando filhote, vive uma vida doméstica nos Estados Unidos. Nesse sentido, a trama foca no retorno caótico do personagem para o Brasil, que acaba novamente nas mãos de traficantes e quase não é recuperado a tempo de acasalar com a última fêmea da espécie. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada pelo longa persiste no cenário nacional, visto que o comércio ilegal de animais silvestres é, ainda hoje, um dos pilares da escalada do crime na sociedade brasileira. Sendo assim, é mister entender como a glamourização do selvagem e o descaso estatal perpetuam essa mazela social.
Em primeiro plano, menciona-se a valorização da exploração da fauna brasileira como uma das propulsoras do tráfico de espécies silvestres. Nesse contexto, tem-se o Romantismo, que, no século XVIII, promoveu o exotismo e o encanto pelo desconhecido, impulsionando a cobiça e a procura por animais raros, tidos como símbolos de riqueza e poder. Somado a isso, a moda, ao fixar, nos anos 1960, o “animal print”, que utiliza pele de bichos selvagens para a confecção de roupas e acessórios, solidificou a condecoração da posse desses objetos oriundos do meio agreste. Dessarte, percebe-se o fortalecimento de uma mentalidade geral que enaltece o comércio de seres silvestres do Brasil.
Juntamente a isso, a negligência governamental a respeito da conservação de espécies nativas brasileiras também configura um empecilho para o combate ao tráfico dos selvagens. Diante disso, há a afirmação do historiador Leandro Karnal, o qual exibe que o Estado é fruto da sociedade por ele governada. Dessa forma, em um corpo social baseado no ideário popular que determina artefatos de origem animal e posse de seres silvestres como sendo algo sofisticado e digno, torna-se inevitável a presença de governantes indiferentes à defesa da fauna do país. Logo, justifica-se a abstração estatal quanto ao Artigo Constitucional 225, que prevê o resguardo do meio ambiente como direito do cidadão.
Portanto, medidas hão de ser tomadas, a fim de afirmar uma política eficiente de combate ao comércio ilegal de animais silvestres. Primeiramente, a Secretaria Nacional de Justiça deve punir, de forma mais rígida, os crimes cometidos contra o ecossistema brasileiro, honrando a “Campanha Nacional de Proteção à Fauna Silvestre”. Isso seria possível por meio da parceria com órgãos legisladores e asseguraria a vigência plena da Constituição Federal. Ademais, ONGs, a partir da cooperação com a mídia, precisam pressionar o Poder Público acerca da necessidade de ações voltadas à preservação do patrimônio do Brasil, como defende o “Projeto Aliança Pró-Fauna”. Desse modo, garantir-se-ia um distanciamento daquela realidade alarmante exposta pelo filme “Rio”.